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Os estereótipos são um instrumento, por excelência, de compreensão do mundo. Ajudam-nos a arrumar a realidade em caixinhas, facilitam a organização do pensamento, mas ao mesmo tempo limitam a nossa capacidade de ver além das etiquetas que colocamos nas pessoas. A utilidade dos estereótipos termina quando a sua existência representa a negação da diversidade humana.

 

Os estereótipos de género são um bom exemplo de como estes auxiliares do pensamento são simplificações da realidade que não podem ser levadas demasiado a sério. Em termos abstratos o feminino e masculino tendem a ser representados como duas entidades completamente distintas, até opostas. Associamos determinadas características físicas, psicológicas e até intelectuais a mulheres e outras completamente diferentes a homens. As mulheres são mais sensíveis, os homens mais autoritários. As mulheres gostam mais de novelas, já os homens de futebol. As mulheres interessam-se mais por moda e os homens por automóveis. Todos nós conseguimos identificar as características que são associadas a umas e outros, independentemente de concordarmos com essa divisão…

 

Ana é uma mulher com braços de ferro. Nunca trabalhou fora de casa, mas também não encaixa no estereótipo da dondoca. Vive numa grande casa que faz questão de manter a brilhar e para além disso tem a seu cargo ou participa em muitas tarefas fisicamente exigentes. Rachar lenha, matar animais, amassar grandes quantidades de farinha e preparar o forno para cozer o pão são algumas delas. Digamos que a Ana não precisa de um homem para lhe abrir o frasco de doce, a Ana é a pessoa a quem podemos pedir para o abrir quando não o conseguimos fazer.

 

Quando penso na maior parte dos homens que conheço ou com quem me cruzo no meu dia-a-dia, seja no trabalho, no supermercado ou entre o meu grupo de amigos mais chegados, não vejo muitos que conseguissem ganhar um braço de ferro à Ana. Alguns não conseguem abrir o frasco de compota hermeticamente fechado há anos.

 

Os estereótipos são como um desenho grosseirão de uma criança de poucos anos. Conseguimos perceber que está lá uma casa, o sol, as nuvens, mas os tamanhos, as formas, as cores não são reais. Muitas vezes têm elementos ficcionados, como uma porta no meio de uma parede, um animal que não existe.

 

A realidade é bem mais complexa e matizada do que os estereótipos que a representam. A Ana é real. A Ana é uma mulher.

*Publicado em Público

 

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