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O meu olhar sobre a realidade está muito centrado nas questões de género. É como se eu usasse uns óculos especiais que analisam automaticamente o que vejo sob esse ângulo, procurando indícios de desigualdades sociais entre homens e mulheres, sinais de dominação masculina… Isto não acontece todos os dias, a toda a hora, mas é frequente.

 

Este fim-de-semana, enquanto visualizava dois dos filmes candidatos aos Óscares, aconteceu uma vez mais. Vi de uma enfiada Spotlight e A Queda de Wall Street. O primeiro conta a história de uma investigação jornalística acerca da pedofilia na Igreja Católica, mais concretamente sobre padres que abusaram sexualmente de crianças, provenientes preferencialmente de meios desfavorecidos por serem mais vulneráveis. A Queda de Wall Street analisa os mercados financeiros, a sua opacidade, as mentiras e conivências que os alimentam e explica-nos a lógica de casino que estrutura o seu modo de funcionamento.

 

Saí do cinema com os meus óculos especiais colocados e dois pensamentos. Primeiro, os homens dominam as instituições mais poderosas. Segundo, os homens não prestam. Rapidamente, reformulei o segundo pensamento para, o Homem não presta, o ser humano é capaz de coisas horríveis (algum tempo depois, passado o sentimento de revolta, reconhecia que o Homem também é capaz de coisas maravilhosas e a vida sorria-me novamente).

 

A maior parte dos protagonistas daquelas histórias de abusos e ganância eram efectivamente homens, mas isso apenas acontece porque são eles que dominam a Igreja e instituições financeiras, duas das esferas mais importantes das nossas sociedades, de resto. São eles que estão mais bem colocados para fazer coisas hediondas, mas também têm o mérito de marcar a história com coisas extraordinárias.

 

Se trocássemos os protagonistas por mulheres a história era diferente? Diferente sim, mas não necessariamente melhor.

 

Garantir o acesso das mulheres aos lugares de poder trata-se de uma questão de justiça e equidade social, mas por si só não vai resolver todos os problemas do planeta. O mundo vai ser seguramente um lugar melhor quando os mais capazes, independentemente do sexo, sejam homens ou mulheres, ocuparem os lugares de maior responsabilidade, isso é certo. Vamos todos ganhar com isso, mas as mulheres fazem parte daquilo que designamos de Homem. E o Homem já provou que é capaz do melhor e do pior.

 

* Publicado em Público


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