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Costumo fantasiar sobre muitas coisas, como a maior parte das pessoas, acredito. Imagino-me em sítios idílicos, a viajar, comer ostras, beber um bom copo de vinho e outras coisas boas que fazem bem à alma e não são para aqui chamadas.

 

Também costumo sonhar com situações em que consigo, heroicamente, dar cabo dos maus e salvar os bons! Por exemplo, perante um assalto, agarrar o ladrão e imobilizá-lo com apenas uma mão. Este é talvez um clássico com que muitos se poderão identificar.

 

Fantasio sobre a minha condição de heroína não só quando estão em causa furtos materiais, mas também em relação a situações em se viola a dignidade das pessoas. É isso que acontece quando um desconhecido me dirige a palavra na rua para dizer coisas mais ou menos ordinárias e inconvenientes. Perante este tipo de abordagens indesejadas de homens a comentar o meu aspecto físico e insinuar desejo ou atracção sexual, costumo imaginar que, em vez de me remeter ao silêncio e acelerar o passo, os enfrento com o olhar e lhes dirijo algumas palavras azedas. Nas fantasias mais hardcore perco o bom-senso e toda a compostura, seguro-os pelo braço e faço uso de vários palavrões para manifestar o meu desagrado. Imagino-me a dizer coisas do tipo “ó meu grande ***, conheço-te de algum lado para me dirigires a palavra?!”. Para bem da minha integridade física este diálogo nunca ganhou vida, mas digam lá se não gostavam de ver a reacção do ofensor?

 

O cenário piropeiro mais agreste caracteriza-se por uma rua vazia e escura, um olhar agressivo, uma linguagem corporal intimidatória, um tom de voz provocatório, ingredientes ideais para deixar qualquer pessoa desconfortável e ansiosa. O cenário pode ser mais suave, mas não é por isso que um piropo passa a ser menos insultuoso – deixa apenas de ser tão aterrador. Sei que este tipo de agressões verbais fazem parte do dia-a-dia de muitas mulheres, as quais, tal como eu, optam pelo desfecho menos heróico mas fantasiam muito a esse respeito.

 

A gravidade dos piropos advém do facto de estes constituírem uma manifestação de dominação masculina, um mecanismo de promoção de insegurança das mulheres nos espaços públicos e de objectivação dos seus corpos. A quem gosta de minimizar os piropos ou ridicularizar as objecções que lhes são feitas, só posso dizer que o machismo está presente em várias camadas da vida em sociedade e todas têm a sua importância. Reflecte-se nas desigualdades salariais, mas também nas pequenas coisas do dia-a-dia, tais como um homem dizer a uma desconhecida “Se cair, já sei onde me agarrar!”… Este piropo foi retirado do vídeo promocional que a RTP exibiu a propósito das comemorações da implantação da República Portuguesa. Parece mentira, mas infelizmente é verdade. 

 

* Publicado em Público

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7 comentários

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De super mulher a 07.01.2016 às 20:23

Rui, com certeza nenhum tribunal vai condenar nenhum homem a 3 anos de prisão por dizer "bom dia princesa". E não imagino que alguma mulher vá denunciar alguém por isso. Estamos a falar de penalizar um tipo muito especifico de assédio sexual que é frequente nas ruas e por isso a lei foi alterada.

A alteração da lei refere-se a "propostas de teor sexual", ou seja, aplica-se aos piropos mais hardcore, e a pena pode ir ATÉ 1 ano ou multa até 120 dias. A pena ATÉ 3 anos aplica-se apenas a ofensas a menores de 14 anos.

Concordo que os extremismos geralmente são negativos, mas não creio que a alteração à lei seja um exemplo disso.
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De Rui Moreira a 08.01.2016 às 00:06

Elisabete, já antes concordamos que não estamos aqui a falar de um simples "Bom dia princesa", mas de comentários de conteúdo bem mais grave. No entanto, com toda a sinceridade, responda-me a esta pergunta: imagine que, a partir de hoje, vai na rua e um homem lhe diz, por exemplo, "És boa como o milho". Considera que esse piropo é motivo para condenar o indivíduo a um ano de cadeia? Seria capaz de chamar a polícia e mover um processo contra essa pessoa, sabendo que isso irá implicar, por exemplo, a perda do emprego? Tem noção das repercussões gravíssimas que uma condenação em tribunal pode representar para a vida de alguém? Se a sua resposta é sim, então aconselho-a a comer uma sopa Campbell's, para aquecer o seu coração frio...

Tal como lhe disse antes, não estamos a falar aqui de perseguição, ameaça física e muito menos de violação. Estamos a falar de comentários que justificam a adopção de medidas de coacção, sim senhor, mas que não deixam de ser meras palavras que merecem um enquadramento penal condizente com a sua real gravidade.
Olhe, recentemente, na Arábia Saudita, condenaram um indivíduo à prisão e a 1000 chibatadas por considerarem insultuosos os textos que escreveu no seu blogue. Pois se eu fosse a si tinha cuidado com o que escreve aqui, Elisabete, não vá algumas destas mentes iluminadas da Assembleia da República decidir importar essa moda para Portugal. Já estivemos mais longe...

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