Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




 

Duarte nasceu e viveu toda a adolescência dentro do castelo. A mãe rainha e o pai rei tinham receio do que lhe pudesse acontecer fora das muralhas e fizeram de tudo para o proteger. Os professores iam dar-lhe aulas na torre maior. Foi aí que aprendeu inglês e mandarim por questões estratégicas do reino. Teve aulas particulares de representação, natação, viola, esgrima… Tornou-se um príncipe culto, fisicamente ágil e robusto. Como não frequentou a escola, os filhos dos empregados eram os seus melhores amigos.

 

Ao completar 18 anos foi organizado um baile em sua honra. Estava na altura de casar e o baile serviria para lhe escolher uma noiva. Foram enviados convites para todos os reinos vizinhos e no total compareceram três centenas de pessoas. O Duarte estava lindo nesse dia, mas a sua expressão facial não podia revelar maior tristeza. A mãe rainha apresentou-lhe pessoalmente duas ou três meninas de sangue azul da sua eleição. De lágrimas nos olhos, Duarte dançou toda a noite com as candidatas. Não conseguia disfarçar a tristeza e o incómodo.

 

O príncipe estava há muito apaixonado por Francisco, o filho do mordomo principal. Francisco era um rapaz forte e doce, muito perspicaz e com um sentido de humor extraordinário. Os olhos de um azul profundo hipnotizaram o Duarte para sempre. O Francisco fazia-o feliz.

 

Quando o baile terminou Duarte sentiu que chegara o momento de contar toda a verdade aos pais. Apesar de antecipar o sofrimento que lhes ia causar, não podia continuar a adiar esta conversa e fê-lo com Francisco presente.

 

“Mãe, pai, eu e o Francisco amamo-nos e queremos ficar juntos, constituir família. Se eu chegar a ser rei desta terra é o Francisco que estará ao meu lado.”

 

A mãe rainha teve uma quebra de tensão e desmaiou. O pai deu-lhe uma bofetada estridente e começou a gritar ordens. O mordomo foi despedido e o Francisco expulso do reino. Seguiram-se meses de amargura. Duarte recusava-se a sair do quarto. Emagreceu cinco quilos em poucas semanas. O rei e a rainha começaram a questionar a sua decisão, no entanto, temiam a reacção dos demais reinos. Tinham receio de que um rei homossexual – era assim que Duarte seria conhecido – poderia colocar a credibilidade e independência do reino em xeque. A avaliação das agências de rating iria com certeza cair a pique… O reino chegaria a lixo…

 

Exactamente um ano depois Duarte decidiu enfrentar novamente os pais e renunciar ao seu título. Não herdaria o trono caso não aceitassem o seu amor por Francisco e essa condição era irrevogável. Nesse momento, os reis deram-se conta do erro que estavam a cometer. O casamento aconteceu dia 1 de Abril de 1900, tendo a festa durado sete dias. Duarte e Francisco viveram felizes para sempre, com as dez crianças órfãs que adoptaram em conjunto.

 

* Publicado em Público

Um país incapaz de renovar as gerações, sem crianças, está condenado ao desaparecimento. Literalmente.

 

As pirâmides etárias dos nossos dias são tudo menos pirâmides e na origem desta deformação está o emagrecimento dos escalões etários mais jovens. Portugal, neste contexto, como é mais do que sabido, encontra-se numa posição especialmente difícil. Em 2014, destaca-se como o país com a taxa de natalidade mais baixa de todo o continente europeu (PORDATA). Na corrida para a extinção vamos, portanto, em primeiro lugar! Mas o que fizemos nós, enquanto nação, para merecer tomar a dianteira nesta maratona em direcção ao precipício populacional?

 

Os casais portugueses querem ter filhos, vários, isso não é o problema. O que os impede, então? Podemos apontar vários factores, mas há um que se destaca. Digamos que ter um filho representa um desafio orçamental tamanho que muitos casais se ficam pelo primeiro e, apesar de quererem muito sentar dois ou três filhos à mesa, decidem não avançar com esse “investimento”.

 

O tal desafio orçamental ganha significativa expressão mal termina a licença parental e prolonga-se durante um largo período de tempo, até a criança completar seis anos de idade e integrar o 1.º ciclo, universal e "gratuito" (com muitas aspas). Até lá, a maior parte dos pais passa a assumir encargos com creches e infantários que assumem valores muito pesados para os curtos salários nacionais. Uma creche facilmente pode custar mais do que a prestação ou renda da casa. Um infantário, não raro, representa o maior encargo financeiro do orçamento familiar.

 

Para além do preço, a escassez da oferta deste tipo de serviços torna o processo de seleccionar e encontrar vaga numa creche ou infantário um verdadeiro inferno. Mesmo contando com a oferta privada, o nosso país não dispõe de uma rede de prestadores que cubra 100% das necessidades da população. Portanto, o mercado é ironicamente insuficiente para a procura, ela própria em franco encolhimento.

 

Uma das propostas deste Governo é exactamente garantir 100% de cobertura da rede de ensino pré-escolar. O ensino pré-escolar abrange as crianças entre os três e os seis anos. Ficam de fora as demais… A proposta é boa, o alcance curto.

 

Tendo em conta o diagnóstico anterior, torna-se fácil identificar a medida que maior impacto teria na inversão da taxa de natalidade. Um político que queira ficar na história das políticas educativas de Portugal tem aqui uma grande oportunidade. Trata-se de  substituir aqueles cheques de 100 euros por bebé, por uma rede integrada de creches e infantários de cobertura nacional e gratuita. Ou isto, ou uma pirâmide de pernas para o ar…

 

* Publicado em Público

 

Os miúdos gostam de imitar os adultos ou crianças mais velhas, sejam eles homens ou mulheres, rapazes ou raparigas. Desenvolvem afinidades especiais com uns, mais do que com outros, mas é a imitar que se tornam gente. Imitam formas de falar, repetem palavrões, ganham interesse pelo desporto, pela leitura…

 

Num contexto como aquele em que o André cresceu era quase impossível que ele não gostasse de maquilhagem e vestir saias. André era o único menino da família. Brincava com frequência com as irmãs, embora fossem bastante mais velhas, mas principalmente com as primas Carolina e Sofia. A Carolina e a Sofia tinham imensos brinquedos super coloridos, cheios de brilhantes e lantejoulas, tutus e tules. Tinham estojos de maquilhagem, trens de cozinha, tiaras e varinhas de condão. É claro que um menino de 8 anos, como ele, adorava isso tudo também!

 

Nas tardes de domingo costumavam ficar em casa dos avós, onde tinham um quarto cheio de todo o tipo de brinquedos. Fazer passagens de modelos e concursos a imitar o Ídolos ou o  The Voice Kids eram as brincadeiras preferidas. Para preparar a entrada no palco improvisado pelo avô Manel maquilhavam-se e vestiam-se a rigor. Pintavam as unhas com os vernizes da Carolina e maquilhavam-se com o estojo que a tia Laura oferecera à Sofia. O estojo tinha inclusivamente um kit de pestanas postiças! (Chegaram a chatear-se por causa dessas pestanas postiças!) Depois calçavam os saltos altos da avó e vestiam as suas roupas. Realmente as avós estragam os netos com mimos. Até o vestido de noiva foi buscar para alimentar a brincadeira. Os miúdos deliravam com o véu e a grinalda!

 

Uma tarde, o pai do André foi buscá-lo mais cedo e ficou em choque quando viu o filho de batom vermelho, bochechas rosadas, unhas com brilhantes, saia xadrez com pregas e o véu da avó na cabeça. Chateou-se com ele, deu-lhe umas palmadas e ainda foi discutir com a avó. Em lágrimas o André gritava, “mas por que é que a Carolina e a Sofia podem e eu não? Porquê? Porquê?” O pai não conseguia dizer outra coisa senão “porque não!”. De cabeça fria começou a pensar no assunto e arrependeu-se da reacção extemporânea que tinha tido naquela tarde. Afinal, o que é que o André tinha feito de errado? Ele não sabia responder.

 

Os pais têm em mãos várias responsabilidades, entre elas destaca-se a de dar educação aos filhos. Educar é uma tarefa muito complexa e ampla. Educar, entre outras coisas, significa ensinar as regras e valores de determinada sociedade para que as crianças consigam relacionar-se mais facilmente com os demais e com eles partilhar as mesmas referências culturais. Mas até que ponto devem os pais restringir a liberdade das crianças em prol de uma melhor aculturação? Até que ponto podem os pais limitar os interesses e aspirações dos seus filhos, apenas porque eles não correspondem àquilo que é mais aceite, mais comum, mais “normal”? Este é um assunto muito complexo e, quanto a mim, representa um dos maiores desafios dos pais no que diz respeito à educação dos seus filhos.

 

Algumas figuras públicas têm servido de exemplo para esta discussão. A cantora britânica Adele levou recentemente o seu filho vestido de princesa à Disney. Por que não haveria de o fazer?

 

*Publicado em Público


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Março 2016

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031