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O meu olhar sobre a realidade está muito centrado nas questões de género. É como se eu usasse uns óculos especiais que analisam automaticamente o que vejo sob esse ângulo, procurando indícios de desigualdades sociais entre homens e mulheres, sinais de dominação masculina… Isto não acontece todos os dias, a toda a hora, mas é frequente.

 

Este fim-de-semana, enquanto visualizava dois dos filmes candidatos aos Óscares, aconteceu uma vez mais. Vi de uma enfiada Spotlight e A Queda de Wall Street. O primeiro conta a história de uma investigação jornalística acerca da pedofilia na Igreja Católica, mais concretamente sobre padres que abusaram sexualmente de crianças, provenientes preferencialmente de meios desfavorecidos por serem mais vulneráveis. A Queda de Wall Street analisa os mercados financeiros, a sua opacidade, as mentiras e conivências que os alimentam e explica-nos a lógica de casino que estrutura o seu modo de funcionamento.

 

Saí do cinema com os meus óculos especiais colocados e dois pensamentos. Primeiro, os homens dominam as instituições mais poderosas. Segundo, os homens não prestam. Rapidamente, reformulei o segundo pensamento para, o Homem não presta, o ser humano é capaz de coisas horríveis (algum tempo depois, passado o sentimento de revolta, reconhecia que o Homem também é capaz de coisas maravilhosas e a vida sorria-me novamente).

 

A maior parte dos protagonistas daquelas histórias de abusos e ganância eram efectivamente homens, mas isso apenas acontece porque são eles que dominam a Igreja e instituições financeiras, duas das esferas mais importantes das nossas sociedades, de resto. São eles que estão mais bem colocados para fazer coisas hediondas, mas também têm o mérito de marcar a história com coisas extraordinárias.

 

Se trocássemos os protagonistas por mulheres a história era diferente? Diferente sim, mas não necessariamente melhor.

 

Garantir o acesso das mulheres aos lugares de poder trata-se de uma questão de justiça e equidade social, mas por si só não vai resolver todos os problemas do planeta. O mundo vai ser seguramente um lugar melhor quando os mais capazes, independentemente do sexo, sejam homens ou mulheres, ocuparem os lugares de maior responsabilidade, isso é certo. Vamos todos ganhar com isso, mas as mulheres fazem parte daquilo que designamos de Homem. E o Homem já provou que é capaz do melhor e do pior.

 

* Publicado em Público

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Jout Jout Prazer

14.02.16

 

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O movimento Free the Nipple está a ganhar algum protagonismo no mundo ocidental. Trata-se de um grupo de pessoas, mulheres na sua maioria, que defendem que os seios femininos e masculinos devem ter o mesmo direito de exibição pública. Mais concretamente, lutam pelo direito das mulheres a mostrar os seus mamilos, tal como os homens já fazem em muitos contextos, sem que isso seja social ou legalmente punido.

Porque é que as nossas sociedades toleram melhor os mamilos de um homem do que o seu equivalente feminino? Porque é que um homem, na praia, pode passear-se livremente de peito ao léu sem, por isso, despertar qualquer interesse e uma mulher o faz num clima grandemente envolto de tensão e censura? Mesmo entre as mulheres que se renderam ao top less, vemos que muitas o fazem timidamente deitadas na toalha, como se sentissem que estão a fazer algo errado. Aliás, quando se levantam da toalha cobrem rapidamente os seios, por não se sentir completamente à vontade para os mostrar, em vez de os exibir sem receio do olhar de reprovação ou do olhar descaradamente guloso.

Há países inclusivamente em que a exibição pública dos seios e mamilos femininos é considerada atentado ao pudor, acto punível por lei, enquanto os homens o podem fazer livremente. Um desses países é o Brasil e eu descobri-o da pior maneira. Nas belíssimas praias do Brasil as mulheres estão proibidas de fazer top less. A histeria à volta das mamas e dos mamilos é tão grande que, mesmo em contexto de amamentação, muitas mães são repreendidas ao fazê-lo publicamente. A censura é de tal ordem que alguns estados brasileiros se viram obrigados a multar quem proibisse as mulheres de amamentar publicamente.

A histeria em muito advém da conotação sexual associada a esse órgão mamário e, como acontece em muitos casos, quem paga a factura são as mulheres. O facto de uma mulher mostrar os seios num local público, seja numa zona balnear, seja num banco do jardim enquanto amamenta o seu filho, não pode ser lido como um convite sexual, ou uma agressão à moral e bons costumes. Não quero com esta crónica instigar as mulheres a fazê-lo, apenas defendo que elas o possam fazer se assim o entenderem.

As fronteiras que separam aquilo que é ou não aceitável numa sociedade em termos da sexualidade, corpo e intimidade são muito difíceis de traçar. Trata-se de assuntos que no entender de muitos são exclusivamente do foro privado, mas outros defendem que devem ser regrados e enquadrados do ponto de vista legal. Quanto a isto, se todos, em conjunto, enquanto sociedade, decidirmos que é para tapar os mamilos, pois bem, deem fatos de banho ou biquínis aos homens também! 

 

*Publicado em Público

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