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Existem factores que podem reverter completamente o sentimento de incompreensão e reprovação que algumas pessoas sentem em relação à homossexualidade. A homofobia pode, como que por magia, dar lugar a uma atitude quase gay friendly quando, por exemplo, um filho nos diz que é gay. O amor é, portanto, o pó mágico, a varinha de condão que faz a transformação acontecer!

 

Esta é a história de Celeste, mas também a história de muitas outras famílias portuguesas. A Celeste nasceu e cresceu numa época em que a homossexualidade se vivia às escondidas e não eram reconhecidos quaisquer direitos aos casais de lésbicas e gays. Uma época em que se podia condenar publicamente este tipo de orientação sexual, sem esperar ser censurado por alguém. Uma época em que os direitos LGBT não faziam parte da agenda política.

 

Agora as coisas são bem diferentes, costumava lamentar-se Celeste. Os casais do mesmo sexo podem casar-se e adoptar crianças, passeiam-se de mão dada nas ruas, acariciam-se despudoradamente e beijam-se na boca até! A Celeste tudo isto parecia uma aberração, um sinal de que o mundo estava perdido, como habitualmente dizia. Hoje Celeste pensa de maneira bem diferente. Quando discute o tema entre amigas, nos almoços de família ou no trabalho, afirma inclusivamente coisas do tipo “na intimidade cada um faz o que quer”, “quem sou eu para condenar”, “que mal fazem às outras pessoas?”, “é melhor uma criança ser adoptada por um casal de lésbicas do que crescer num lar, não acham?”.

 

A varinha de condão agitou-se no dia em que a sua filha, de 24 anos, decidiu finalmente confessar à mãe aquilo que a atormentava desde a adolescência. Maria tinha tanto receio de perder o amor da mãe que durante anos preferiu não partilhar com ela uma parte importante da sua vida, mas já não conseguia fazê-lo mais.

 

Foi em lágrimas e a tremer que a Maria contou à mãe que sempre gostou de mulheres e tinha uma namorada há dois anos, a Rita. Celeste sempre soube que a filha era diferente daquilo que esperava, mas nunca se preparou para aquele momento. Na verdade, a mãe sempre teve esperança que “aquilo” passasse, como uma doença acaba por passar. Também Maria evitou este momento, tentando durante anos relações amorosas com rapazes, beijando-os na boca à espera de sentir alguma coisa que não indiferença. Mas a indiferença permaneceu e ali está ela, em frente à mãe, à espera que o amor não desapareça. E o amor não desapareceu.

 

A melhor maneira de descobrir se o seu filho é homossexual é educá-lo num clima de liberdade e abertura. Certamente ele lhe dirá, pessoalmente, assim que o descobrir. 

 

*Publicado em Público

Sopa deliciosa

05.01.16

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Zero mulheres mortas pelas mãos do actual ou ex-marido, companheiro ou namorado, em 2016. Até quando esta afirmação se manterá verdadeira? Até quando poderemos dizer isto? Por quantos dias mais?

 

Segundo dados da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) e do Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA), morreram, em 2014, 35 mulheres nestas condições. Dados avançados pelos media revelam que, em 2015, foram 29 as mulheres assassinadas. Ou seja, em 2014 de dez em dez dias uma mulher foi morta pelo homem com quem mantinha ou manteve uma relação amorosa. Em 2015, as mortes aconteceram a cada 13 dias. Em ambos os anos, registaram-se ainda mais homicídios sobre a forma tentada.

 

Estes números são a face mais obscura da desigualdade entre homens e mulheres, daquilo que alguns denominam de dominação masculina. Traduzem um sentimento de posse que alguns homens desenvolvem em relação às mulheres. Espelham a ideia da mulher como um ser inferior, que deve submissão ao homem. Alguns poderão argumentar que este tipo de sentimento e tragédia pode desenvolver-se no sentido contrário, ocupando o homem o papel de vítima e a mulher o de agressora. E têm toda a razão. Isso é possível. Contudo esta crónica não é sobre casos pontuais, mas sim sobre um fenómeno social.

 

O cronómetro para que os jornais noticiem a primeira mulher assassinada de 2016 já iniciou a contagem decrescente. A qualquer momento uma mulher vai ser morta pelo seu marido, com maior ou menor brutalidade, talvez em frente aos filhos de ambos, ao que se seguirá, eventualmente, o suicídio do próprio homicida. Morta a tiro ou à facada, espancada até à morte, queimada ou sufocada. Que sorte deve esta mulher esperar? Quem vai inaugurar as estatísticas da mortalidade por violência doméstica do novo ano? Será a Maria de Ermesinde ou a Catarina de Évora? Talvez uma vizinha minha, quem sabe… A única certeza é que alguma mulher vai, em breve, morrer.

 

A morte é o expoente máximo da violência doméstica. Na sua origem, nas suas raízes encontramos os múltiplos casos de agressão física e psicológica que acontecem diariamente no nosso país. Os mais optimistas podem pensar que nas classes etárias mais jovens a dinâmica de violência não está tão presente. No entanto, os estudos que têm sido divulgados a esse respeito apontam para uma realidade diferente. Os próprios dados da PSP são chocantes. Em 2014, registaram-se mais de quatro queixas diárias de violência doméstica em contexto de namoro. A esmagadora maioria destas queixas foram feitas por mulheres.

 

Hoje é dia 4 de Janeiro de 2016. Começou um novo ano e as mortes vão suceder-se. Só não sabemos quantas.

 

*Publicado em Público


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