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Aquilo que consideramos belo e feio é profundamente dependente da cultura em que crescemos. Podem facilmente identificar-se traços gerais, mas igualmente várias nuances. Por exemplo, os mais jovens são muitas vezes mais arrojados. Saias mais curtas, calças rasgadas ou pelas nádegas. Nuances à parte, a verdade é que a maior parte de nós esforça-se por se enquadrar dentro daquilo que entende como bonito e atraente, não é?

 

A natureza é impiedosa e não distribui de igual modo os atributos mais valorizados em termos de curvas, magreza, músculos, cor dos olhos, formato do nariz, altura…por isso, consegui-lo é mais fácil para uns do que para outros. Para além dos atributos físicos existe todo um conjunto de vestimentas, calçado e adereços que podemos usar para enfeitar e valorizar os nossos corpos. Algumas das nossas escolhas suscitam em mim sentimentos contraditórios. É o caso dos saltos altos.

 

Cresci com a imagem da mulher-adulta, da mulher-fatal e da mulher-independente a desfilar-se pelas ruas de saltos altos. Cedo quis começar a andar em cima deles. Era adolescente e queria projectar tudo aquilo que, para mim, eles representavam simbolicamente. Ainda hoje os aprecio. Gosto, compro e depois uso-os com parcimónia. Na verdade calçá-los e andar em cima deles exige muita perícia e consiste numa prova de esforço que na maior parte dos dias não estou disposta a fazer. Ao primeiro tropeção na pedra da calçada lá se vai toda a elegância que eles são capazes de conferir a quem assim se passeia. Os saltos altos tolhem também a agilidade, prejudicam o conforto e danificam a coluna. E não vou explorar os incidentes cómico-trágicos que um salto partido ou preso num buraco da calçada podem proporcionar…

 

Se o extraterrestre daquela galáxia longínqua viesse ao nosso planeta e visse uma mulher descer a Avenida da Liberdade, tentando equilibrar-se nos seus bonitos saltos altos com dificuldade, o que pensaria? Provavelmente o mesmo que nós pensamos ao ver aquelas imagens de homens e mulheres, de tribos distantes, com o queixo perfurado. Ou das mulheres-girafa que usam dezenas de argolas no pescoço, como acontece na Tailândia. Ou dos corpos escarificados.

 

Pergunto-me porque consideramos um sapato com uma espécie de espeto debaixo do calcanhar bonito. Não encontro respostas.

 

Beleza a quanto obrigas.

 

*Publicado em Público

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A primeira vez que vi um casal de homossexuais de mãos dadas na rua, foi em Praga há cerca de 15 anos. Lembro-me que a imagem me deixou de sorriso rasgado, um pouco eufórica até. Na altura eu era uma miúda, vivia em Bragança e, mesmo nas estadias na capital, nunca tinha visto casais de gaysou lésbicas a passear-se descontraidamente e de forma anónima no meio da multidão, manifestando carinho entre si. Mesmo em ambientes mais abertos como o eram as escolas e as universidades que frequentei, não recordo alguma vez ter visto pessoas que não heterossexuais expressar o seu amor tórrido no bar ou no pátio. Desse tipo, pelo contrário, já vi muito. Talvez tenha protagonizado alguns deles.

 

Agora sei por que os casais de homossexuais eram invisíveis, apesar de se cruzarem comigo na rua e comigo terem partilhado a secretária.

 

Felizmente, hoje, nas ruas de Lisboa é cada vez mais comum ver-se pares de namorados homossexuais a trocar carícias e beijos em público. Tal como vemos casais heterossexuais. Exactamente da mesma maneira. Estas expressões de amor e carinho causam desconforto e estranheza a algumas pessoas, mas são muito importantes para que se entranhem de tal maneira nas nossas vidas que deixemos de dar por elas. Por isso continuam a arrancar-me sorrisos. São sinais de que a humanidade está a evoluir no sentido certo, no sentido da igualdade e da compreensão em relação ao que se considera diferente.

 

Eu que vivo uma relação com um homem e o posso beijar na boca sempre que me apetece, ou quase, pergunto-me como seria não o poder fazer. Conter o beijo, o abraço, a carícia fora de casa, a todo o momento, em qualquer circunstância. Quantas pessoas vivem as suas relações amorosas deste modo, em plena contenção de emoções, sem exprimir o que sentem?

 

Posso imaginar que são cada vez menos, pois as mudanças sociais a que temos assistido em termos dos direitos dos homossexuais têm sido positivas, embora lentas, na minha opinião. Sei que Roma e Pavia não se fizeram num dia, mas… No entanto, ainda são muitas, demais. Se assim não fosse, porque não nos cruzamos com mais casais de gays e lésbicas no nosso dia-a-dia? No trabalho, no café lá do bairro, no prédio, na escola e até no grupo de amigos? Que eles estão lá, ao nosso lado, a usar a máquina das fotocópias ou a beber café é indesmentível. Talvez ainda não se sintam suficientemente confiantes de que não vão sofrer qualquer tipo de represálias ou discriminação para o assumir…

 

*Publicado em Público

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