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Todos os inquéritos e estudos dizem que a esmagadora maioria dos portugueses deseja ter filhos. Dois filhos, aliás. No entanto, os dados dizem-nos que no plano da concretização muitos ficam-se por um filho. Em 2013, o índice sintético de fecundidade era de 1,21, o que significa que, em média, cada mulher em idade fértil teve menos de dois filhos.

 

Como explicar esta discrepância entre o plano das aspirações e o plano das concretizações? Quanto a mim, existem dois fortes motivos. Por um lado, a orfandade de Estado a que as crianças estão destinadas, num país de baixos rendimentos. Por outro lado, a sobre-responsabilização das mães no que diz respeito às crianças, desde logo pelas próprias mulheres.

 

É sabido que os apoios à parentalidade são fundamentais para garantir a renovação das gerações, o bem-estar das mães, dos pais e, claro, das crianças. De todos nós, portanto. O Estado português está a falhar na tarefa de providenciar estes apoios, caso contrário não seríamos um dos países do mundo com menor índice sintético de fecundidade.

 

Para inverter este percurso o Estado português precisa de reconhecer os seus filhos. Isso faz-se aumentando o número de creches e infantários públicos. Fiscalizando e criando maiores penalizações para as empresas que despeçam mulheres grávidas ou façam pressões para que estas adiem o projecto de ser mães, e isto aplica-se igualmente aos homens. Incentivando e promovendo uma maior partilha das licenças entre os pais e as mães, e criando mecanismo que facilitem a conciliação família/trabalho para ambos. Enfim, cabe ao Estado o desenvolvimento de políticas públicas que visem aumentar as taxas de natalidade num país em acelerado envelhecimento como o nosso.

 

Quando falo em apoios à parentalidade refiro-me à maternidade e à paternidade. Portanto, ao leque de apoios disponíveis para as mães e os pais. Porque prefiro este termo ao uso de maternidade? A resposta é muito simples. Porque ter um filho implica responsabilizar e apoiar ambos os pais e não só as mulheres.

 

Não podemos continuar a assumir que cuidar dos filhos, educá-los, é uma tarefa predominantemente feminina. Este é, aliás, um motivo para que algumas mulheres tenham receio de ser mães, antevendo “penalizações” noutras esferas da vida que também valorizam, como a profissional, ou na qualidade de vida em geral. Infelizmente este medo não é infundado. Sim, as mulheres carregam as crianças na barriga e são elas que as deitam cá para fora. Também são elas que as amamentam, a menos que, por motivos diversos, não o façam. Para além disso, não me parece que haja uma única tarefa que os homens não possam fazer. Do mesmo modo, não acredito que as mulheres sejam necessariamente melhores do que os homens a cuidar de uma criança. Se os homens se interessarem e partilharem com as mulheres os cuidados das crianças, poderão fazê-lo tão bem como qualquer mãe.

 

Muitos dos jovens pais têm uma enorme vontade de participar mais na educação e cuidados dos menores. Para que eles se possam realizar enquanto pais, e as mulheres não fiquem assoberbadas com esta enorme tarefa, há que dar-lhes espaço para que isso aconteça. Para começar, as próprias mulheres devem esforçar-se para deixar de reproduzir o estereótipo de que não há ninguém melhor no mundo para cuidar de uma criança do que a própria mãe. O pai pode substitui-la na perfeição. E ainda bem.

 

*Publicado em Público

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Sociedade Civil

18.03.15

 

 

O programa da RTP2, Sociedade Civil, do dia 17 de Março foi dedicado ao culto da beleza.

Tive a oportunidade de participar e dar o meu contributo enquanto socióloga.

 

Podem ver o vídeo clicando na imagem ;)


 

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O último ensaio filosófico de José António Saraiva (JAS) deixou meio Portugal indignado, uma vez mais, sobretudo as mulheres. Quanto a mim, continuo a achar que JAS é um iluminado incompreendido.

 

A crónica consiste numa reflexão sobre o amor, de nível elevadíssimo, mas baseada em factos concretos para que os menos capazes possam acompanhar a profundidade do seu pensamento. Factos muito concretos, aliás. Trata-se de um levantamento exaustivo dos pretensos namorados de uma figura pública durante cerca de oito anos, que servem de prova para os perigos do excesso de amor. Para se documentar JAS consultou as revistas cor-de-rosa mais sérias do país. A informação é, portanto, fidedigna. Quanto à relevância esta é inquestionável.

 

Eu conheço um homem que sofre do mesmo mal, excesso de amor. Trata-se do Zé Manel lá do bairro. Tal como JAS, eu acho que é importante alertar a população para este problema e por isso trago-vos a sua história.

 

Zé Manel viveu com a primeira esposa, Leonor, filha do mecânico da esquina, durante dois anos. Quando se juntaram ele tinha 23 anos e começara a fazer bolos há já três. Separaram-se em 2007, quando a filha de ambos ainda não andava. No mesmo ano, o pasteleiro namorou com a cabeleireira Ângela Rebelde e, poucos meses depois, não escondeu de ninguém que “andava” com a esteticista Nina. Nina, a brasileira, e não a do café Laranjeira. O romance não durou e no início de 2008 Zé Manel, a estrela da Pastelaria Canela, começou a namorar Paula Costa. Contudo, em Abril apareceu no supermercado com a secretária Lisa Lopes a comprar pão, presunto e uma garrafa de Lambrusco. O namoro não durou, e no Verão de 2009 Zé Manel assumia viver feliz ao lado da florista Madalena, a ruiva. No final de 2009 Zé Manel envolveu-se com a costureira Betty, antes de um fugaz namoro com a dona do café Venha Cá, a Manuela dos caracóis. Em 2010, corria o boato no bairro que o Zé Manel vivia um tórrido romance com a peixeira Joana Santos, e mais tarde com a empregada de mesa Beatriz. Em 2011, Zé Manel publicou uma foto no Facebook aos beijos com Anita, filha da dona da Lavandaria Tudo Limpo, ex-namorada do primo da dona Amélia dos bolos. Em Agosto do mesmo ano, assumia o namoro com Henriqueta a empregada de limpeza do advogado Joaquim Fernandes, mas também ouvi dizer que estava envolvido com Rute, a cozinheira do restaurante que fica ao lado da papelaria da Teresinha. A última relação assumida antes de se casar com Leonor Vieira, auxiliar na escola Fernando Pessoa, foi com a Felismina que veio de Castelo Branco viver com a Tia Maria, por sua vez vizinha da prima Jerusa onde Zé Manel passava os fins-de-semana em miúdo, quando os pais viajavam. Desde que o conheço contei 15 mulheres, o que dá uma média de quatro namoradas por ano, fora os que não são do conhecimento da Lurdes, a senhora que me depila as axilas e me vai pondo a par de tudo o que se passa na rua.

 

Esta dissecação da vida alheia tem, portanto, o objectivo de alertar o leitor para o perigo do excesso de amor. Acusações à minha pessoa, ou a JAS, de difamação ou violação da intimidade serão imerecidas e injustas. Quanto a mim, sei que Zé Manel não o vai fazer, já Marta... Para ele, e para a grande maioria dos homens, ser namoradeiro é um atributo positivo, uma qualidade, um elogio. Para as mulheres, pelo contrário, trata-se de uma insinuação sobre a sua falta de integridade e seriedade. São essas desigualdades simbólicas profundamente enraizadas na nossa sociedade que JAS reproduz na sua mais recente crítica de costumes. Um clássico.

 

*Publicado em Público

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Quando foi a primeira vez que percebeste que eras gay? O que sentiste?

Apercebi-me tarde e não lhe dei importância. Diria que me apercebi quando dei conta que ao ver BayWatch a Pamela Anderson não me importava para nada, mas já o David Charvet e aqueles abdominais perfeitos provocavam coisas em mim.

 

Como tomaste a decisão de contar à tua família? Como correu?

Na verdade a minha irmã encarregou-se de falar com eles. Os meus pais aceitaram sem problema algum, preferem ter um filho gay que não ter um filho (porque basicamente era essa a situação, ou me aceitavam, ou me esqueciam). O meu irmão teve mais dificuldade em aceitar mas passado o primeiro ano o assunto normalizou-se e os dois natais seguintes foram celebrados em casa dele. A minha cunhada, super religiosa, foi quem insistiu que eu e o meu namorado dormíssemos na mesma cama.

 

No teu trabalho e no grupo de amigos todos estão a par da tua orientação sexual?

No meu trabalho sempre souberam desde o primeiro dia. É um ambiente de 70% mulheres e não senti em momento algum necessidade de esconder a minha sexualidade. É uma cidade grande e aqui há mais liberdade, nesse sentido, que em qualquer outro país que eu já tenha visitado. Os meus melhores amigos são todos gays, há excepção de 2 ou 3 da adolescência. Tenho amigos heterossexuais (com filhos) com quem me dou muito bem e o contacto com eles é agradecido porque é importante manter um contacto com a realidade (heterossexual). Mas quando é preciso falar de problemas é sempre com amigos gays. Ao ser uma vida à parte, só entre nós é que podemos discutir certas situações. Há certos assuntos que só se podem discutir entre gays porque são conversas que para um heterossexual são, no mínimo, escandalosas. E não me refiro só ao tema sexual.

  

Onde costumas fazer amizade com outros gays? Frequentas locais gay friendly?

Antes sim, muito bar, muita discoteca gay. Depois veio a internet e matou um bocado o relacionamento cara a cara (parece aquela canção Video Killed the Radio Star, dos Buggles). Agora já me aborreci da internet e reneguei completamente às apps de engate (Grindr, Scruff, etc). Como conheço gente? Ou através de amigos em situações sociais, ou em bares, até no ginásio… Sobretudo através de amigos. Na verdade é um assunto que tem andado na mente de toda a gente ultimamente. Onde se pode conhecer gente de qualidade, atractiva mas sem ser aborrecida? Quando descobrires, avisa-me.

  

O que pensas do facto de o estado se imiscuir na tua vida privada, na medida em que legisla sobre a possibilidade de poderes casar com outro homem, de poderes adoptar uma criança?

Acho que são tudo tretas políticas. Não acredito, sinceramente, que alguém seja tão pequeno de espírito para se incomodar por isso. Relativamente à adopção, acho um crime deixar um garoto morrer de solidão num orfanato na Rússia do que um casal de dois homens o possam adoptar, isso é que é realmente o crime. Pessoalmente comparo a luta actual pelos direitos LGBT com a luta pelos direitos das pessoas de cor dos EUA há pouco mais de 40/50 anos. É inevitável, é lutar contra a maré. Restam 4 velhos na aldeia do mundo com ideias contrárias e, quando esses 4 velhos morrerem, às novas gerações vai-lhes dar igual que um homem vá para a cama com outro homem ou juntos tenham um garoto, seja de que forma for.

  

Identificas-te com os movimentos LGBT?

Não. Não consigo. Queria mas não consigo. Vejo as carroças dos gay pride e sinto vergonha interior. Nunca na minha vida me disfarcei de mulher, não sei andar de tacões e acho que essas demonstrações só fazem mais mal que bem pela comunidade. Em NY há vários corpos da polícia, bombeiros, atletas, etc. que desfilam nessas demonstrações, com isso podia-me sentir identificado. Acho um espectaculo grotesco. A única coisa que acho que as associações LGBT fazem bem hoje em dia é dar apoio aos infectados pelo HIV. Dispõem de muitas clínicas para fazer testes rápidos, dispõem de acompanhamento psicológico, grupos de apoio. Isso sim acho muito completo.

  

O que achas da forma como os media, em geral, representam os gays?

Não me sinto identificado com nenhum dos clichés gay portanto também me custa identificar com o que divulgam os media. Eu sinto-me realmente como um gajo normal que tem a característica de gostar de outros gajos. Não é a característica que mais me define como pessoa, portanto é difícil eu identificar-me com alguém da televisão. Não sei se me faço compreender. Em todo o caso acho que a divulgação de temáticas gay melhorou muitíssimo nos últimos 10 anos e tem tendência a ser apresentado como um estilo de vida normal e saudável portanto acho que vamos no bom caminho, se bem que ainda falta algo. Falta um protagonista principal de telenovela gay. Falta um Herman José sair do armário. Falta um presidente da camara de Lisboa gay, falta uma pessoa respeitável sair do armário e rebentar com os estereótipos de uma vez por todas. É preciso que o mundo comece a ver a homossexualidade como uma característica não relevante, como a cor dos olhos ou das meias que uma pessoa leve postas naquele dia.

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As últimas décadas trouxeram muitas mudanças na forma como homens e mulheres vivem as suas vidas. As mulheres adquiriram, pelo menos perante a lei, um estatuto idêntico ao dos homens. Ao contrário do que acontecia há escassas décadas, hoje uma mulher pode viajar para o estrangeiro sem a necessidade de uma autorização por parte do marido, só para dar um exemplo conhecido. No fundo, as mulheres conquistaram direitos pelos quais têm vindo a reclamar e continuarão a fazê-lo. Existem inclusivamente orientações políticas e linhas de financiamento público para projectos que visem promover a igualdade entre homens e mulheres.

 

E os homens? Como é que os homens têm vivido todas estas mudanças? Qual o papel dos homens nas actuais sociedades? Como têm eles lidado com a perda de poderes? O que mudou do seu lado? Sentir-se-ão ameaçados? Satisfeitos? Inseguros? (Demasiadas questões para uma crónica tão curta).

 

Falei com muitos homens sobre este assunto e percebi que alguns se sentem desiludidos e até revoltados com todas estas mudanças. Não compreendem e não conseguem lidar bem com a autodeterminação das mulheres, acusam-nas de serem demasiado competitivas no trabalho e pouco dedicadas nas relações amorosas, ao contrário do que acontecia no passado. Este é o caso de Adão, um jovem que se sente muito desiludido com as mulheres que tem conhecido. A última namorada não acedeu a abandonar a universidade para o seguir para o estrangeiro, com destino a um trabalho milionário, o que nunca teria acontecido no tempo dos seus pais, queixa-se. O sonho de Adão sempre foi o de ganhar o suficiente para conseguir sustentar uma grande família, permitindo à mulher ficar em casa a cuidar dos filhos. Nos dias de hoje esse sonho parece-lhe cada vez mais difícil de conseguir e isso deixa-o revoltado com as mulheres.

 

Ao contrário de Adão, muitos outros homens já não se reveem no papel de chefes de família ou provedores do lar. Procuram desenvolver relações mais paritárias. No entanto, para alguns essa tarefa levanta desafios e dúvidas existenciais. Rejeitam o modelo de masculinidade dos seus pais, mas não sabem exatamente que tipo de homem querem ser e, muito menos, que tipo de homem as mulheres procuram. Por exemplo, Filipe depois de algumas relações amorosas falhadas questiona-se, “É bom que o homem chore ou não? É bom que o homem seja sensível ou não?” Filipe sempre acreditou que estas suas características eram qualidades que as mulheres de hoje em dia procuram num homem, mas começou a ter dúvidas sobre isso…

 

Outros homens não só vivem bem este clima de maior paridade entre homens e mulheres, como procuram activamente contribuir para todas as mudanças a que temos assistido nos últimos anos. São homens que não sentem a sua masculinidade ameaçada se tiverem um salário inferior ao da sua companheira. São pais que, tal como qualquer mãe, ficam em casa quando os filhos adoecem. Enfim, são homens que estão na linha da frente da mudança social e seguram, ao lado de algumas mulheres, as rédeas do destino de todos nós.

 

*Publicado em Público

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