Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




  

Mandar alguém para o c*** significa desejar-lhe mal, uma vez que o c***, num sentido metafórico, é um sítio temível e indesejável onde vamos ser maltratados e sofrer as estocadas de um qualquer animal raivoso. Se nos portamos mal é para lá que nos mandam. Este desejo pode ser expresso através de palavras ou gestos. Todos nós sabemos bem o que significa levantar o dedo médio e recolher os restantes. Enfim, o c*** nas suas múltiplas representações está por todo o lado. Encontramo-lo facilmente nas portas das casas-de-banho, nas discussões mais acesas entre amigos ou inimigos… É algo simbolicamente forte, duro, rude, agressivo, violento, que confere poder a quem o detém. Por sua vez, a ausência de “tomates” é algo que não abona a favor de ninguém, sendo fonte de embaraço para qualquer homem ou mulher. Ter falta de “tomates” significa não ter coragem, não ser audaz ou destemido.

 

O seu congénere feminino, pelo contrário, está menos presente no nosso dia-a-dia. Também pode ser usado como insulto, é verdade, mas ao contrário do c*** é usado para insinuar que alguém é fraco, frágil, efeminado, franzino… É como se ter uma senisga fosse algo de que nos devêssemos envergonhar. Para além de vergonha, a crica sempre esteve envolta em mistério e misticismos. Tem ponto G ou não tem ponto G? O que é o exactamente o clitóris? Como é o orgasmo feminino? É real ou fingido?

 

Também a menstruação é assunto tabu para muita gente e, no geral, evita-se falar sobre isso. Apesar de o ciclo menstrual estar associado ao aparelho reprodutor feminino e à capacidade de gerar uma criança, desde a antiguidade que a menstruação está na base de vários mitos. Mulher menstruada não deve bater claras em castelo porque elas não vão crescer. Não pode amassar o pão. Não pode tomar banho, sobretudo lavar a cabeça. Já no submundo da bruxaria e magia negra são atribuídos poderes maléficos ao sangue menstrual. Felizmente, creio, muitos deles estão a desaparecer.

 

Portanto, para além das desigualdades materiais e de existência entre homens e mulheres, existem também desigualdades simbólicas (e não só) no que diz respeito ao modo como os órgãos genitais de cada um são representados e valorizados no imaginário ocidental. Foi, aliás, esta desigualdade que esteve na origem do trabalho artístico de uma japonesa, Megumi Igarashi, presa por divulgar imagens da sua patareca. Um dos projectos mais polémicos consistiu em imprimir uma canoa em 3D à imagem da sua passarinha, mas a artista tem também trabalhado em artigos como capas de telemóveis onde inscreve o molde da sua rata. O objectivo da artista é exactamente o de chamar a atenção para a ausência de imagens (e discursos) sobre a vagina, face à presença monopolista do pénis na cultura japonesa. Afinal, quem gosta de ver c***s por todo o lado?

 

*Publicado em Maria Capaz

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

 

 

Muitos homens e mulheres estão doentiamente obcecados pelo Benfica. Outros tantos e tantas seguem de forma compulsiva a novela das nove. Trata-se de comportamentos obsessivos que, por vezes, se associam a alguma instabilidade emocional.

 

É assim na casa dos Batista onde tudo gira em torno do Benfica e da novela das nove. A obsessão é vivida a dois. Quando o Benfica perde ou a novela é subtraída da programação televisiva reina a má-disposição. Preocupados com a situação, o casal consultou um terapeuta que o aconselhou a repensar os seus hábitos, abdicando de um destes dois “passatempos” familiares. Sensibilizados com o que ouviram, o senhor e a senhora Batista deram o primeiro passo, fazendo uma análise dos seus comportamentos.

 

Se há jogo não há jantar com amigos, não há ida ao IKEA, não há sexo, enfim… A casa enche-se de gritos, suspiros, desabafos, lágrimas, insultos, esperança, desilusão, euforia, má-disposição e mais gritos. Esta algazarra perdura para além do jogo. Ouve-se o treinador balbuciar em mau português três balelas sobre o jogo. Se perderam a culpa é da arbitragem, se ganharam foi merecido pois trabalharam para isso. Lê-se o jornal A Bola, acompanham-se as contratações, as lesões, os jovens promissores que levarão o clube de volta às vitórias. Vêem-se os programas especializados com comentadores conhecedores dos últimos 30 campeonatos, os quais conseguem ir buscar para a conversa o golo do Kulkov contra o Bayer-Leverkusen na temporada de 1993/1994. (Sim, o cérebro humano é capaz de registar informação deste tipo.) Enche-se a casa de símbolos do Benfica, compram-se cachecóis e estandartes em miniatura, coleccionam-se cromos dos jogadores e pagam-se as quotas, pois claro. Vai-se ao estádio. Num ano financeiramente desafogado presenteiam-se com um cativo.

 

A novela fica mais barata pois passa na televisão generalista e, para além disso, substitui-se o consumo de imprensa diária por publicações semanais. Ou seja, A Bola é trocada pela Maria. Esta segunda, tem a mais valia de antecipar os próximos episódios. Todos nós sabemos que por mais que se leia o jornal A Bola de fio a pavio é impossível prever o desfecho de um dérbi. Deste modo, evita-se também o suspense que antecede, por exemplo, um Benfica-Porto bem como o chinfrim que acompanha o jogo. Ver a novela é algo mais tranquilo, podendo inclusivamente adormecer-se durante a sua visualização sem culpas ou remorsos. Isto porque no início do próximo episódio eles repetem os acontecimentos mais importantes. Também não há problema em ir jantar fora na hora da novela, pois pode gravar-se o episódio para ver mais tarde sem correr o risco de ouvir na rádio o resultado.

 

Na verdade a paixão pela novela das nove não é a mesma que os Batistas nutrem pelo seu Benfica. Quando uma novela acaba começa outra logo a seguir e, sem culpas, esquecem-se os antigos protagonistas e começam a odiar a nova vilã. No futebol não se passa de um clube para outro com esta leviandade e vive-se tudo com mais inquietação.

 

Feito o balanço, o senhor e a senhora Batista decidiram trocar o Benfica pela novela das nove. É melhor para a carteira e para o coração.

 

*Publicado em Público

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

 

A mulher moderna peca pela falta de educação. Por oposição, a mulher “do antigamente” é dócil, nunca responde torto, acata o que lhe dizem, gosta de servir o outro e fá-lo com um sorriso nos lábios. Não tem vontade própria e não incomoda com as suas necessidades. Jamais discorda do que está a ser dito e, na maior parte das vezes, não chega sequer a emitir uma opinião. Esta mulher está em vias de extinção e isso trouxe consequências para a sociedade em que vivemos.

 

O descontentamento de algumas facções é visível. Ouve-se muito por aí “o mundo está perdido!” em tom de desabafo ou crítica. Tendencialmente, esta lamúria é dedicada aos jovens ou às mulheres. Os jovens não respeitam os mais velhos e usam calças rasgadas ou no fundo das nádegas (não sei como conseguem, a propósito). As mulheres perderam o respeito pelo próximo, usam roupa atrevida, vão para a cama com quem querem, fumam e bebem como os homens… Nada que o regresso de Salazar do mundo dos mortos e das assombrações não resolvesse, sugerem algumas pessoas que não se sentem confortáveis com o curso dos acontecimentos.

 

Devo confessar que simpatizo com a liberdade e libertinagem da mulher moderna. No entanto, podemos fazer umupgrade desta versão e lançar a mulher moderna 1.2, mais polida e altruísta. O primeiro passo no sentido de um mundo melhor é muito simples. Basta seguir o exemplo dos cavalheiros, essa espécie de homem extremamente bem-educado e atencioso. Eu, sempre que posso, tento fazê-lo.

 

Vou concretizar esta ideia com uma lista de cinco regras simples que, a serem cumpridas, podem transformar qualquer mulher moderna numa verdadeira dama. Basta, como verão, pensar no cavalheiro, mais cavalheiro que conheçam, e reproduzir os seus exemplares comportamentos.

 

Regra nº 1: Abrir a porta do carro para o homem poder entrar, poupando-o a esse esforço braçal. Isto aplica-se mesmo que seja ele a conduzir.

 

Regra nº 2: Escolher e provar o vinho no restaurante, retirando essa responsabilidade dos demais convivas.

 

Regra nº 3: Deixar o homem passar à frente para entrar no elevador primeiro, independentemente da ordem de chegada, mostrando-lhe assim respeito (não vale olhar para o rabo, pois é coisa que um cavalheiro jamais ousaria fazer).

 

Regra nº 4: Puxar a cadeira para o homem se sentar confortavelmente, poupando-o, uma vez mais, ao esforço braçal de ser ele a arrastá-la (para criar músculo existem os ginásios, não é?).

 

Regra nº 5: Oferecer um ramo de flores a um homem especial, no aniversário ou noutra data a assinalar. Preferencialmente o ramo deve ser entregue no local de trabalho para que todos possam testemunhar o gesto e o apreço nutrido pelo homem em questão.

 

Eu tento seguir estas regras no meu dia-a-dia e posso dizer-vos que é muito reconfortante e divertido. A reacção da maior parte dos homens é de surpresa. Alguns oferecem resistência, mas no fundo ninguém consegue resistir a uma mulher moderna bem-educada. Não se preocupem com as reacções de estranheza que possam receber, com o tempo as pessoas habituam-se à boa educação.

 

Fico a aguardar o feedback das vossas experiências.

 

*Publicado em MariaCapaz

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ser gay é duro

08.02.15

 

Ser gay é duro por vários motivos. As dificuldades, por vezes, seguem-se em catadupa.

 

Conheço jovens que sempre se souberam homossexuais mas, até hoje, quase adultos/as, nunca tiveram um/a namorado/a. Quando se apaixonam não demonstram os seus sentimentos com medo da reacção, temem ser "desmascarados/as" no grupo de amigos, perante a turma, na família... Resta-lhes conhecer pessoas através das redes sociais. Por si só isso não é um problema. O problema é só existir um caminho.

 

Conheço jovens homossexuais que apenas abandonaram as cidades onde nasceram porque não se viram capazes de ali viver a sua homossexualidade. Ou seja, namorar, casar...

 

Conheço homossexuais que nunca aceitaram o facto de se sentirem atraídos/as fisicamente por pessoas do mesmo sexo e se forçaram a manter relacionamentos heterossexuais. Entretanto, alguns/mas já casaram com pessoas do sexo oposto. Até quando vão conseguir anular os seus impulsos e vontade própria, não sei.

 

Conheço casais de homossexuais "casados/as" há mais de uma década que, ainda hoje, escondem da família mais próxima a sua relação. O medo da rejeição e o receio de causar sofrimento assim o determinaram.

 

Felizmente, não conheço homossexuais que tenham sido perseguidos ou maltratados fisicamente por causa da sua orientação sexual. No entanto, infelizmente, isso acontece.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

  

Gosto imenso daqueles jogos para encontrar as diferenças entre duas imagens. Sempre que apanho uma coisa dessas sou incapaz de lhe resistir. Já tive inclusivamente algumas ideias dignas da última página de qualquer jornal. Imaginem uma imagem de um corpo de uma mulher de estatura média e outra, ao lado, de um corpo de um homem da mesma altura. São capazes de encontrar cinco diferenças? Genitais, tamanho dos seios, pêlos no peito, barba… Que mais?!

 

Sim, o corpo dos homens e das mulheres é diferente, mas convenhamos que não é assim tanto como nós o fazemos parecer. Aliás, em bebés são mais as semelhanças do que as diferenças. Quem nunca se enganou no sexo de um bebé, perguntando “que menina mais linda! Como se chama?”; “tem aqui um belo rapagão, quantos meses?” Afinal a menina mais linda chama-se João e o rapagão Alice. Sempre que protagonizo uma situação deste tipo o constrangimento instala-se. Tendencialmente, as pessoas não gostam deste tipo de mal-entendidos. Por isso muitos pais optam pelos rosas ou os azuis para vestir os seus recém-nascidos.

 

À medida que crescemos, a cultura incita-nos a trabalhar para exponenciar as diferenças entre o corpo dos homens e das mulheres, acabando com as dúvidas sobre o sexo de cada um. As incertezas tornam-se, assim, menos constantes. Desde crianças que todos nós, salvo excepções, investimos bastante tempo e dinheiro para tornar o nosso corpo indubitavelmente mais masculino ou mais feminino.

 

As mulheres esforçam-se por eliminar os pêlos do corpo e da face, excepto os cabelos. Esses, pelo contrário, querem-se longos, exigindo uma série de cuidados e escolhas quanto ao look pretendido. Champô, amaciador, máscara hidratante, alisamento, hidratação, madeixas, luzes, tinta, caracóis… Enfim. Por sua vez, os pêlos das pernas, axilas, virilhas e buço (nalguns casos braços, barriga e costas) arrancam-se com cera ou máquina apropriada, descoloram-se, queimam-se com creme, laser ou luz pulsada. As unhas pintam-se com verniz, verniz gel ou gelinho. Também se pinta a rosto com maquilhagem ajustada ao tom de pele. Base, creme hidratante com cor, blush,eyeliner, rímel, sombras… E, certamente, mais produtos cosméticos que desconheço. Quanto à alimentação e exercício físico, as mulheres tendem a conter-se e optar por controlar o desenvolvimento muscular.

 

Os homens, regra geral, fazem o oposto. Não pintam as unhas, não pintam o rosto, não pintam o cabelo, não arrancam os pêlos da face e são, ainda, poucos os que depilam o corpo. A alimentação não costuma ser tão restritiva, comem hidratos de carbono e batatas fritas sem sentimento de culpa. Ao contrário das mulheres, esforçam-se por avolumar a massa muscular e sonham com abdómens “tablete” e braços “dromedário”.

 

Também a roupa e os adereços servem o propósito de diferenciar homens e mulheres. A roupa dos homens costuma ser mais sóbria e menos diversificada. Saias e vestidos estão reservados apenas às mulheres, bem como os saltos altos. A deles tende a ser mais larga e confortável, ao contrário da roupa e calçado femininos. Saias que travam o andar e saltos altos que dificultam a locomoção são ícones distintivos das mulheres. Alguns destes são um pouco desapropriados, convenhamos. Sobretudo o salto alto. Se um alienígena viesse à terra iria seguramente perguntar-se porque é que as mulheres ocidentais andam em cima de “andas”, pondo à prova o equilíbrio a cada passo que dão.

 

Um quiz com imagens de homens e mulheres assim enfeitados seria demasiado fácil. 

 

*Publicado em Público

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Fevereiro 2015

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728