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À medida que fui tomando consciência de mim e da sociedade que me rodeava, percebi que havia contextos mais e menos tradicionais. Mais e menos machistas. Mais e menos fechados. No que diz respeito às relações de género, ao papel da mulher e do homem, há uma instituição que se destaca das demais pela resistência à mudança.

 

A Igreja Católica encabeça a lista das organizações cuja estrutura e dinâmicas internas menos têm mudado nas últimas décadas. As mulheres continuam relegadas para os bastidores dos acontecimentos e não podem aceder, formalmente, aos lugares mais elevados da hierarquia eclesiástica. Não há mulheres a desempenhar as funções de padre, bispo, cardeal ou Papa. Ao contrário do que acontece noutras Igrejas, as mulheres podem frequentar os espaços de culto com a mesma liberdade de um homem, é certo, mas por trás do altar estará apenas um deles.

 

Se me perguntarem porque é que a hierarquia da Igreja é, ainda hoje, tão machista e discriminatória face às mulheres, eu não sei responder. Será que a Igreja impede o acesso das mulheres aos papéis mais importantes no seio da sua organização porque parte do pressuposto de que elas são menos capazes que os homens? Quão grave pode ser trincar uma maçã e oferecê-la ao único homem à face da terra? O que podem as mulheres fazer para se redimir dos pecados de Eva e passar a ser tratadas em pé de igualdade com os homens?

 

Confesso-me pouco conhecedora dos textos bíblicos, mas creio que não diz em lado nenhum que se deve restringir o acesso das mulheres a determinadas funções na hierarquia da Igreja. Aliás, que eu saiba, não existe nenhum versículo iluminador sobre a forma que a estrutura da Igreja Católica deve assumir. Caso esteja enganada, resta-me prescrever a sua substituição por uma colectânea de textos mais actualizados. Estando certa, resta-me lamentar a fraca capacidade interpretativa dos estudiosos que se dedicam a este tema.

 

Podemos, igualmente, procurar explicações na própria hierarquia simbólica da Igreja. Começando desde logo pelo todo poderoso. Ainda que se possa equacionar Deus como uma figura abstracta e de difícil descrição, o que é certo é que se este assumisse a figura humana seria um homem, pois na igreja não se apela e não se fazem promessas à Deusa... Pelo contrário, são várias as invocações a Deus, o pai de todos nós, como dizem.

 

Mas a história não é só feita de homens. A Virgem Maria é uma personagem importante e Madalena uma figura polémica. Para além destas, algumas mulheres ao longo da história têm sido beatificadas. O culto a algumas delas é, aliás, colossal. Em Portugal, por exemplo, temos o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, onde afluem milhares de crentes todos os anos. É pena a Igreja determinar à partida que nenhuma mulher está à altura de o dirigir.

 

Esta segregação de género está igualmente presente no presépio. Na representação clássica temos três reis magos, um José, um Jesus e uma Virgem Maria. Portanto, cinco contra um e, convenhamos, a Virgem Maria não conta pois acabou de dar à luz numa manjedoura e está seguramente em convalescença. Perante este desequilíbrio, só o estabelecimento de quotas permitirá trazer alguma harmonia a este cenário. Porque não juntar algumas mulheres ao presépio do próximo ano?

 

*Crónica publicada no Público

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Há afirmações que me desconcertam.

 

Fico desconcertada quando alguém se vangloria por não saber fazer alguma coisa, como é o caso de algumas mulheres que dizem com bastante orgulho não saber cozinhar. Talvez seja a fuga dos papéis de género mais tradicionais que as leva a fazê-lo, pois, caso contrário, parece-me um pouco non sense.

 

Já ouviram alguém vangloriar-se por não saber falar inglês?

Ou por não saber fazer compras online?

Ou por não saber conduzir?

 

É tão estranho ouvir uma mulher promover-se dizendo que não sabe cozinhar, como um homem gabar-se que não sabe mudar um pneu. Não saber fazer seja o que for, não dominar determinada competência, não faz de um homem ou de uma mulher uma pessoa mais progressita. Pelo contrário, é pela positiva que se caracteriza o mundo moderno. No mundo moderno, os homens sabem cozinhar e as mulheres mudam os pneus.

 

 

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A cultura é criada, reforçada e transformada através de vários mecanismos. Família, escola, televisão, Internet são alguns dos veículos de socialização mais eficazes. Ainda antes de saber andar com destreza, as crianças são expostas a inúmeras fontes de informação sobre a cultura em que estão inseridas. Esta exposição à cultura nunca mais pára, mas os primeiros anos de vida são especialmente importantes.

 

Aprende-se, desde cedo, algumas regras básicas sobre interacção social e outras mais complexas sobre as identidades sociais. Aprende-se a comer com garfo e faca, a cumprimentar com dois beijos na face e a agradecer os presentes. Aprende-se, também, o que é esperado de um homem e de uma mulher na sociedade e quais as suas características padrão. Aprende-se que o cor-de-rosa é cor de menina e que o futebol é coisa de meninos.

 

Também a publicidade cumpre o seu papel, pois muitas vezes o que ela faz é reforçar os estereótipos que circulam em determinada cultura. Fazem-se anúncios sobre detergentes e amaciadores para a roupa com donas de casa afáveis e preocupadas com as coisas do lar. Fazem-se anúncios sobre carros com homens bem-parecidos e ar de quem é bem-sucedido na vida. Ou, então, com mulheres atraentes e voluptuosas tentando passar subliminarmente a mensagem de que ao comprar o carro se receberá, quiçá, um brinde igual àquele.

 

Do meu ponto de vista, a publicidade peca por não surpreender o consumidor e não acompanhar a mudança social. Um exemplo gritante são os panfletos dos brinquedos que vemos circular por esta altura. Os panfletos estão meticulosamente divididos em duas secções. Uma parte em que domina o cor-de-rosa e é dedicada às meninas e outra azul para os meninos. É raro existir uma zona neutra. Na parte cor-de-rosa podem encontrar-se trens de cozinha, ferros de passar, micro-ondas, etc. Enfim, todo o tipo de parafernália que estamos habituados a ver numa cozinha. Na parte azul aparecem os carros de corrida, os carros descapotáveis, os carros clássicos, os comboios, mas também as retroescavadoras e outras viaturas ligadas à construção civil. E claro, bolas de futebol e até balizas desmontáveis.

 

A menos que a ideia seja manusear os brinquedos com os órgãos genitais, como uma mensagem que circula nas redes sociais parodia, alguém me explica o porquê desta segmentação tão acentuada (e fora de moda) entre os brinquedos das crianças?

 

Não me digam que estamos a educar todas as nossas meninas para serem empregadas domésticas? Bem sei que nos dias de hoje uma licenciatura não é garante de bom emprego, mas mais vale um canudo na mão do que uma esfregona, não? Para além disso, limpar a casa e esfregar as panelas não é algo que as pessoas gostem assim tanto de fazer… Ou estarei enganada?

 

E os meninos, vão ser todos pilotos de Fórmula 1? Jogadores de futebol? Vem aí uma geração inteira de Cristianos Ronaldos? O futebol move mundos e muito dinheiro, bem sei, mas não me parece que haja lugar para tantas bolas de ouro…

 

A pior prenda de Natal de sempre é aquela que limita o futuro das crianças. Uma varinha mágica em miniatura, cor-de-rosa e decorada com borboletas é isso mesmo. A pior prenda de Natal de sempre. Não que eu desvalorize a arte de saber cozinhar. Muito pelo contrário, gosto imenso de cozinhar e vejo-o como uma actividade lúdica e relaxante. Mas o que seria de nós se apenas soubéssemos cozinhar ou dar chutos numa bola?

 

Neste Natal desejo que as prendas das crianças apareçam trocadas nos sapatinhos. Um carrinho para a menina e um ferro de engomar para o menino.

 

*Crónica publicado no Público

 

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Moda masculina

14.12.14

 

 

Na minha tese de doutoramento desenvolvi uma tipologia que pretende caracterizar as escolhas dos homens em termos de indumentária, mas na verdade é unisexo. Identifica-se com alguma?

 

A roupa com classe permite evidenciar uma condição social, sendo comum entre quem por ela opta a fidelização a determinadas marcas e a sobriedade em relação aos acessórios. Esta é a roupa de eleição dos homens com origem sociais mais desfavorecidas e protagonistas de trajetórias de mobilidade social ascendente, os quais se servem da roupa enquanto emblema de distinção social na recém-chegada a uma nova classe social. Aderir àquilo que se considera ser o código de indumentária de determinada classe social, a que se pertence ou aspira pertencer, passa por uma estratégia de integração.

 

A roupa invisível veste os homens com origens de classe mais favorecidas, os quais tendem a optar pela discrição em termos de cores, modelos e marcas. Aliás, o objectivo de uma imagem assim produzida é exatamente a de dar a ver um corpo masculino mais “natural”, de quem não atribui importância à aparência, à imagem ou à moda, mas antes investe o seu tempo e dinheiro em capital cultural.

 

A roupa com estilo pretende ser transgressora em relação ao imaginário masculino/feminino. São comuns os decotes, as calças rasgadas, as cores garridas, os acessórios, fazendo lembrar as passarelas dos desfiles de moda ou alguns ícones mais mediáticos distintos pela exuberância da sua roupa. Não é fácil categorizar socialmente estes homens, sendo que a maioria se localiza nas classes médias e possui níveis de escolaridade intermédios.

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Viajar enche-me de entusiasmo! Gosto de conhecer outras realidades e dar conta das diferenças culturais dos lugares por onde passo. 

 

Este fim-de-semana fui conhecer Milão e o charmoso Lago de Como. Na mala trouxe esta publicidade que me despertou a atenção pela actualidade. Muitas vezes a publicidade reforça os estereótipos, outras vezes consegue acompanhar a mudança social. 


homem carrinho bebe.jpg

 

 

 

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