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Os meus homens

01.06.14

Este espaço servirá para dar visibilidade aos meus homens.

 

Conheci-os no decurso da minha investigação de doutoramento e com eles falei horas a fio. As suas vidas aparecerão brevemente em livro. Enquanto isso não acontece, deixo-vos aqui algumas histórias de vida cheias de tradição e modernidade. 

 

Trata-se de um grupo de homens particular, caracterizado por modos de produção corporal intensos, tradicionalmente associadas ao universo feminino ou homossexual, como é o caso da prática da depilação ou do uso de cosméticos, e que vêm, portanto, desafiar as corporeidades modais da sua época. A estes homens os media denominaram de “metrossexuais”, categoria que não é consensual mesmo entre os entrevistados, sendo rejeitada por uns e acolhida por outros. 

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A entrevista com Filipe demorou cerca de 3h30m e decorreu numa esplanada de um restaurante do seu bairro. Filipe esteve sempre muito descontraído ao longo da entrevista e a empatia foi facilmente criada. Muitas vezes as suas intervenções, mais do que respostas às perguntas que lhe eram colocadas, eram evasões que de alguma forma reflectiam as suas angústias pessoais. O seu ar informal não deixava adivinhar a série de cuidados com o corpo, nem o tempo e dinheiro que investe em roupa.


Filipe tem 37 anos, é realizador de cinema, actividade que combina com a de professor numa escola profissional ligada às artes audiovisuais. Apesar de fazer o que sempre desejou, confessa viver um momento de grande indecisão. O principal factor é a instabilidade financeira associada a sua actividade de realizador, que já o obrigou a recorrer por diversas vezes à ajuda financeira dos pais. Actualmente, equaciona alternativas que passam pela mudança de área de actividade


Filipe sempre viveu em Lisboa, excepto os meses que passou em Nova Iorque a frequentar um curso de representação. No regresso deixou a casa dos pais para começar a viver sozinho, tinha então 24 anos. Estudou até ao 9º ano num colégio privado, tal como a irmã com quem mantém uma relação muito próxima. O ensino secundário decorreu numa escola pública localizada numa “zona de luxo”. Seguiu-se o bacharelato em realização de cinema. Durante a infância e adolescência as férias eram passadas em Sesimbra, onde os pais tinham uma casa de férias, meses que associa a uma maior liberdade.


Tanto o pai como a mãe têm habilitações literárias de nível superior. Ele é engenheiro e ela abdicou do trabalho para ficar em casa a cuidar dos filhos. Ao mesmo tempo que caracteriza os seus pais como um casal conservador, reconhece-lhes alguma abertura e agradece a liberdade de pensamento e acção que sempre lhe foi dada. A relação com a mãe já foi muito próxima, ao ponto de Filipe a caracterizar como “pouco saudável”. Quando começou a ter as primeiras namoradas os conflitos com a mãe surgiram e a relação passou de “sentimental” a “funcional”, afirma. As diferenças de opinião sempre foram maiores com o pai.


Filipe nunca foi um homem ligado ao desporto, até que aos 25 anos começou a frequentar o ginásio. Foi nessa altura que começou a perceber o positivo impacto da prática desportiva no seu corpo e, consequentemente, na auto-estima. Por causa da tendência para engordar Filipe tem alguns cuidados com a alimentação como, por exemplo, comer pouca carne, não adicionar açúcar a algumas bebidas, comer muitos vegetais. Para além disso, não fuma, nem tem por hábito beber bebidas alcoólicas. Diariamente hidrata a pele da cara e do corpo com creme e geralmente usa também um produto de limpeza e esfoliante, mas “nada de exageros” esclarece. Com menos frequência aplica máscaras de argila na cara. Já há alguns anos depila as costas e, mais recentemente, experimentou o peito e braços. Inicialmente era uma namorada que lhe depilava as costas com cera, actualmente aderiu a um sistema de foto-depilação ao domicílio. Durante 10 anos uma massagista de shiatsu deslocava-se a sua casa 2 vezes por mês. Neste momento já não consegue suportar essa despesa. Há 10 anos que frequenta mensalmente o mesmo cabeleireiro, um “cabeleireiro da moda”, diz entre risos.


Foi em Nova Iorque que começou a comprar e escolher a sua própria roupa e perceber, como o próprio diz, “o quão bem me fazia bem ir às compras”. Actualmente recusa-se a comprar roupa em Lisboa e tem por hábito fazê-lo sobretudo nas suas deslocações a Londres. Geralmente nessas viagens dedica dois dias às compras, passeia-se pelas lojas e experimenta roupa durante horas. É um programa que lhe agrada bastante e para o qual não tem “pachorra” em Lisboa. Define o seu estilo a vestir como “casual, mas cuidado” e tende a não usar “roupa de marca” por lhe parecer excessivamente cara.


A primeira namorada a “sério” surgiu quando tinha 17 anos, e antes disso, com 15 anos iniciou a sua vida sexual. Enumera três relações estáveis, todas com uma duração de três anos, aproximadamente. Há cerca de dois anos que não se envolve com ninguém. Da primeira relação guarda boas recordações: “havia uma intimidade que eu nunca tinha tido com ninguém. Depois numa idade em que estamos a descobrir e descobrimos as coisas em conjunto. Não há traumas. Não há complexos. (…) Nesse sentido o que me marcou mais foi essa cumplicidade, que eu acho que ao longo dos anos é mais difícil de se conseguir”. Mais recentemente teve uma relação com uma mulher 10 anos mais nova, com quem chegou a partilhar a sua casa durante dois anos. Desde o início que os conflitos foram muitos e a diferença de idades traduzia-se em diferentes expectativas que acabaram por se revelar inconciliáveis. Do lado de Filipe havia o desejo de constituir família e ter filhos, do outro lado não. No plano das tarefas domésticas a dinâmica revelou-se muito desigual, o que leva Filipe a dizer que era “dona de casa e homem ao mesmo tempo”.


O relacionamento com as mulheres é vivido de forma um pouco angustiante na medida em que Filipe, ao mesmo tempo que diz sentir-se atraído por mulheres mais independentes, deseja relações “simbióticas”. Da sua experiência estas duas realidades acabaram por não ser compatíveis. Por outro lado, foram várias as incertezas partilhadas em relação ao papel dos homens nas sociedades contemporâneas. Nas palavras do Filipe: “os homens de repente têm que se adaptar a uma realidade nova, porque não foram educados assim. (…) Todos os gajos que eu conheço neste momento andam à procura de mulher para casar. (…) E quando olho para as mulheres à minha volta não é isso que elas estão à procura. Tradicionalmente era o homem que tinha as ambições profissionais, que isto e que aquilo…”. Ao mesmo tempo que problematiza estas mudanças e aquilo que designa de “redefinição de papéis” Filipe não deixa de referir diferenças entre homens e mulheres de cariz psicológico e comportamental que considera imutáveis: “nós temos hormonas que nos dão uma determinada agressividade, do ponto de vista sexual e de apetite sexual”. Estas diferenças entre os sexos justificam que considere que meninos e meninas tenham que ser educados de forma diferenciada. Por exemplo, Filipe considera que os pais têm um impulso inato para protegerem mais as filhas. Na escala dos géneros Filipe situa-se no nível quatro, mais próximo portanto do extremo masculino.

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A entrevista com Adão durou cerca de quatro horas distribuídas por duas sessões e realizou-se num centro comercial por si escolhido. Adão nunca esteve totalmente à vontade durante a entrevista. Ora pedia desculpa por qualquer lapso, ora fumava compulsivamente cigarros. Na segunda sessão não estava tão concentrado e disponível para a conversa. Vestia calças de ganga e pólo.

 

O Adão tem 22 anos, deixou a escola com o 9º ano concluído e desde essa altura que trabalha na papelaria da mãe, com quem vive na periferia de Lisboa. Reprovou no 8º ano porque faltava à escola para ir jogar à bola. Chegou a frequentar o 10º ano mas reprovou porque faltava para ficar a dormir até mais tarde. Já a trabalhar, frequentou um curso de Instrutor de Ginásio que lhe custou 500 euros, mas chegava a adormecer nas aulas. Actualmente está muito empenhado na manutenção do negócio da papelaria e diz não tencionar estudar mais. Isto não o incómoda e dá exemplos, em sua defesa, de empresários portugueses de sucesso com poucos estudos.

 

A relação com a mãe é muito boa e, ao longo da entrevista, foram vários os elogios que lhe foi tecendo, principalmente o facto de ser uma mulher independente e trabalhadora que nunca deixou que faltasse nada aos filhos, ao contrário do pai. Ao pai, proprietário de um restaurante, praticamente já não fala. Não lhe perdoa a ausência e negligência em relação à família, que culminou no divórcio dos pais.

 

Adão gosta de viver com a mãe por vários motivos. Não tem despesas com a casa, a mãe está encarregue da maior parte das tarefas domésticas e tem a liberdade de levar quem quer lá a casa. A relação com o irmão, que trabalha numa loja de roupa de um caro estilista italiano, no centro de Lisboa, é próxima. Da irmã, que frequenta o curso de sargento, Adão diz que sempre foi muito masculina e que com ela “nunca tem conversa”.

 

Desde que trabalha na papelaria já teve outros part-time para complementar o que ganha na loja da mãe. Trabalhou num grande supermercado e numa loja de roupa jovem. A passagem pela loja de roupa permitiu-lhe fazer amizade com pessoas mais velhas, fora da Amadora e foi nessa altura que começou a ter uma vida nocturna mais intensa. Apesar de manter algumas amizades do tempo da escola, Adão refere não se enquadrar nas pessoas do Cacém. Ter carro aos 18 anos facilitou as saídas para Lisboa. Ao fim do dia tem por hábito encontrar-se com os amigos no café ou, mais recentemente, ir com eles andar de carro, ouvir música e fumar cannabis. Considera que amadureceu bastante nos últimos anos, que já tem uma “certa cabeça”, e durante a entrevista partilhou alguns episódios por que passou que o levam a equacionar-se como um adulto.

 

No plano amoroso faz referência a duas namoradas, mas confessa que nenhuma delas constituiu uma relação suficientemente especial ou duradoura. É o único do seu grupo de amigos que “ainda não gostou bué de ninguém”, o que deseja, já com alguma ansiedade, que aconteça. Da primeira namorada, tinha ele 18 anos, as recordações não são boas. Para além das “cenas” em frente aos amigos, a ex-namorada chegou mesmo à agressão física a que Adão não deixou de responder. Da segunda namorada diz ser uma das “piores pessoas” que já conheceu.

 

Para além do futebol, que joga regularmente desde muito jovem, Adão costuma ir ao ginásio algumas vezes por semana e, por vezes, vai correr. As corridas são sobretudo para ganhar resistência para os jogos de futebol, pois “mesmo sendo um jogo a brincar, ninguém gosta de perder. Gostas de ter força, gostas de correr”. A entrada no ginásio deu-se aos 17 anos devido ao descontentamento com o pouco peso e aspecto demasiado magro. Na altura confessa que chegou mesmo a pensar tomar suplementos alimentares ou mesmo anabolizantes, como o seu irmão já fez. Não chegou a concretizar pois, entretanto, ganhou algum peso e volume. Ainda criança foi nadador federado durante três anos.

 

Adão diz que desde miúdo não gosta de pêlos. Como tal, por motivos estéticos, higiénicos mas também sexuais, tira os pêlos do peito, das axilas e da zona púbica há alguns anos. Farto de gastar dinheiro na depilação a cera, optou recentemente pela depilação a lazer. Em casa, com uma pinça, retira os pêlos entre as sobrancelhas. Sempre que faz a depilação põe creme no corpo e trata com especial cuidado os pés. Com frequência vai à manicura e pedicura. Na primeira entrevista Adão tinha ainda restos de esmalte nas unhas, mas diz não gostar de usar. No rosto usa diariamente creme hidratante, já fez um peeling e chegou a experimentar usar base. Gostou do resultado, mas recusa-se a aderir a esse ritual: “Opá não tenho paciência. E acho que é uma cena que já não é… Acho que é uma cena já um bocado exagerada para o meu gosto. Há pessoal que gosta, mas para o meu gosto não me estou a ver todos os dias ao fim do dia a tirar a maquilhagem (risos)”.

 

A vestir gosta de estar “apresentável” e define o seu estilo como “normalíssimo”. A principal preocupação é ter uma imagem adequada à sua actividade profissional. É em roupa que gasta grande parte do seu orçamento e dá preferência a marcas que lhe garantem não encontrar muitas peças iguais à sua. Uma grande preocupação, aliás. Gosta de ir às compras sozinho e geralmente não compra logo na primeira vez que vê alguma coisa do seu agrado. Não usa nenhum tipo de acessórios, com a excepção do relógio, e afirma inclusive que “odeia” echárpes. Há alguns anos atrás furou as duas orelhas, mas graças aos avisos do pai em duas semanas tirou os brincos: “o meu pai começou logo a reclamar e hoje em dia agradeço-lhe imenso de os ter tirado porque brincos não cabe na cabeça de ninguém. São estilos mas… Olha eu estar com dois brincos à frente de uma loja. Acho que a loja se calhar não tinha chegado tão longe”.

 

Adão tem uma concepção muito diferenciada dos géneros e atribui às especificidades genéticas e físicas essas diferenças. Associa às mulheres o culto do corpo e da beleza. Já eles são mais pragmáticos e dão mais valor ao lazer, diversão, beber, fumar, no fundo “o homem nasceu para isso”, afirma. Ao longo da conversa Adão não deixou de enumerar excepções, mas tratou-as como tal, excepções à regra. Considera ainda que as mulheres desde sempre usaram a beleza e o corpo para se aproveitarem dos homens. Apesar de considerar que as mudanças são superficiais e, que na essência, as diferenças entre homens e mulheres nunca vão mudar, não deixa e referir o quão difícil é actualmente encontrar uma rapariga para namorar. No plano sexual, reconhece que a sociedade é mais repressora com as mulheres e agrada-lhe que as coisas continuem a ser assim. Na escala dos géneros situa-se no meio, no cinco, pois não se considera nem muito feminino, ou seja gay, nem muito machão, como o seu pai.

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