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Para além do corpo, o que faz de mim uma mulher? O que faria de mim um homem? Aqui estão duas questões para as quais não encontro resposta fácil.

 

Quando penso em mim, nas minhas atitudes, nos meus gostos, nas minhas ambições, nos meus hobbies, nas decisões que tenho tomado, na minha vida em geral, ocorre-me que nada me diferencia de muitos homens que conheço.

 

Deparo-me frequentemente com situações em que me identifico mais com os homens do que com as mulheres, mas o contrário também me acontece. Há coisas no universo feminino que não me atraem, tanto ou mais do que aquelas que encontro no imaginário masculino. Gosto tão pouco de futebol como de novelas, para usar dois clichés. Sinto-me igualmente desconfortável numa clínica de estética, rodeada de revistas cor-de-rosa e conversas sobre celulite, como num estádio de futebol ensurdecida pelos gritos de vitória.

 

A menstruação e o facto de poder gerar uma criança no meu ventre são as únicas coisas que realmente me fazem sentir diferente de um homem. A primeira é um aborrecimento e vem acompanhada de oscilações hormonais de consequências imprevisíveis. A segunda é uma espécie de milagre que não me importaria de protagonizar em alternância com o pai das crianças.

 

Se tenho um sexto sentido, daqueles que só as mulheres têm, nunca dei por ele. Na minha opinião é mito. De resto, não me sinto especial por ser mulher. Sinto-me especial por estar viva.

 

No meio desta dicotomia homem/mulher por vezes não é fácil descobrir um lugar confortável. Talvez não devêssemos esforçar-nos tanto para o encontrar.

 

* Publicado em Maria Capaz

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As mulheres são fúteis, ocas, só se interessam por roupas, maquilhagem, novelas, cabelos e unhas. As mulheres são pessoas hiper-centradas no corpo e na beleza. As mulheres são manipuladoras, tentam enganar os outros para conseguir o que querem. As mulheres em cargos de chefia são piores do que os homens, tratam mal as pessoas e são muito autoritárias. As mulheres são interesseiras e procuram um homem que tenha dinheiro para lhes proporcionar o nível de vida que por elas próprias nunca conseguiriam atingir. As mulheres são intriguistas e coscuvilheiras. São falsas nos elogios que dão às outras mulheres porque, na verdade, são muito invejosas. As mulheres são histéricas e incapazes de manter o sangue frio perante uma situação complicada.

 

Estes e outros estereótipos fazem parte da nossa cultura. Não diria que todos nós comungamos deles, mas que estão entranhados na cabeça de muita gente é indesmentível. Ora, por oposição, e tendo por base estas ideias pré-concebidas, só podemos concluir que os homens são seres complexos e interessados por assuntos sérios. Os homens não ligam à aparência mas apenas ao culto do espírito e do intelecto. Os homens são sempre honestos com os que os rodeiam e não tentam enganar o próximo. Como chefes são cinco estrelas! Compreensivos com os seus colaboradores, sempre prontos a dar um reforço positivo, nunca levantam a voz ou tratam com desrespeito os seus subordinados. Jamais se ouve um homem falar mal de quem quer que seja. Homem que é homem não julga a vida alheia e não comenta o caso extra-conjugal do colega. A honestidade dos homens é inquestionável. Os homens não são invejosos como as mulheres, pelo contrário. Eles desejam o bem do próximo mais do que qualquer outra coisa. Os homens não perdem o temperamento. Não gritam. Não ralham. Se o fazem é porque têm razões para isso.

 

O que é que estes estereótipos nos ensinam?

 

Lição número 1: Hitler era uma mulher. O bigode era postiço, não se iludam.

 

Lição número 2: A Madre Teresa de Calcutá nasceu homem, sendo que a vestimenta de freira sempre ajudou no disfarce.

 

Lição número 3: desconfie sempre dos estereótipos.

 

*Publicado em MariaCapaz

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Mandar alguém para o c*** significa desejar-lhe mal, uma vez que o c***, num sentido metafórico, é um sítio temível e indesejável onde vamos ser maltratados e sofrer as estocadas de um qualquer animal raivoso. Se nos portamos mal é para lá que nos mandam. Este desejo pode ser expresso através de palavras ou gestos. Todos nós sabemos bem o que significa levantar o dedo médio e recolher os restantes. Enfim, o c*** nas suas múltiplas representações está por todo o lado. Encontramo-lo facilmente nas portas das casas-de-banho, nas discussões mais acesas entre amigos ou inimigos… É algo simbolicamente forte, duro, rude, agressivo, violento, que confere poder a quem o detém. Por sua vez, a ausência de “tomates” é algo que não abona a favor de ninguém, sendo fonte de embaraço para qualquer homem ou mulher. Ter falta de “tomates” significa não ter coragem, não ser audaz ou destemido.

 

O seu congénere feminino, pelo contrário, está menos presente no nosso dia-a-dia. Também pode ser usado como insulto, é verdade, mas ao contrário do c*** é usado para insinuar que alguém é fraco, frágil, efeminado, franzino… É como se ter uma senisga fosse algo de que nos devêssemos envergonhar. Para além de vergonha, a crica sempre esteve envolta em mistério e misticismos. Tem ponto G ou não tem ponto G? O que é o exactamente o clitóris? Como é o orgasmo feminino? É real ou fingido?

 

Também a menstruação é assunto tabu para muita gente e, no geral, evita-se falar sobre isso. Apesar de o ciclo menstrual estar associado ao aparelho reprodutor feminino e à capacidade de gerar uma criança, desde a antiguidade que a menstruação está na base de vários mitos. Mulher menstruada não deve bater claras em castelo porque elas não vão crescer. Não pode amassar o pão. Não pode tomar banho, sobretudo lavar a cabeça. Já no submundo da bruxaria e magia negra são atribuídos poderes maléficos ao sangue menstrual. Felizmente, creio, muitos deles estão a desaparecer.

 

Portanto, para além das desigualdades materiais e de existência entre homens e mulheres, existem também desigualdades simbólicas (e não só) no que diz respeito ao modo como os órgãos genitais de cada um são representados e valorizados no imaginário ocidental. Foi, aliás, esta desigualdade que esteve na origem do trabalho artístico de uma japonesa, Megumi Igarashi, presa por divulgar imagens da sua patareca. Um dos projectos mais polémicos consistiu em imprimir uma canoa em 3D à imagem da sua passarinha, mas a artista tem também trabalhado em artigos como capas de telemóveis onde inscreve o molde da sua rata. O objectivo da artista é exactamente o de chamar a atenção para a ausência de imagens (e discursos) sobre a vagina, face à presença monopolista do pénis na cultura japonesa. Afinal, quem gosta de ver c***s por todo o lado?

 

*Publicado em Maria Capaz

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A mulher moderna peca pela falta de educação. Por oposição, a mulher “do antigamente” é dócil, nunca responde torto, acata o que lhe dizem, gosta de servir o outro e fá-lo com um sorriso nos lábios. Não tem vontade própria e não incomoda com as suas necessidades. Jamais discorda do que está a ser dito e, na maior parte das vezes, não chega sequer a emitir uma opinião. Esta mulher está em vias de extinção e isso trouxe consequências para a sociedade em que vivemos.

 

O descontentamento de algumas facções é visível. Ouve-se muito por aí “o mundo está perdido!” em tom de desabafo ou crítica. Tendencialmente, esta lamúria é dedicada aos jovens ou às mulheres. Os jovens não respeitam os mais velhos e usam calças rasgadas ou no fundo das nádegas (não sei como conseguem, a propósito). As mulheres perderam o respeito pelo próximo, usam roupa atrevida, vão para a cama com quem querem, fumam e bebem como os homens… Nada que o regresso de Salazar do mundo dos mortos e das assombrações não resolvesse, sugerem algumas pessoas que não se sentem confortáveis com o curso dos acontecimentos.

 

Devo confessar que simpatizo com a liberdade e libertinagem da mulher moderna. No entanto, podemos fazer umupgrade desta versão e lançar a mulher moderna 1.2, mais polida e altruísta. O primeiro passo no sentido de um mundo melhor é muito simples. Basta seguir o exemplo dos cavalheiros, essa espécie de homem extremamente bem-educado e atencioso. Eu, sempre que posso, tento fazê-lo.

 

Vou concretizar esta ideia com uma lista de cinco regras simples que, a serem cumpridas, podem transformar qualquer mulher moderna numa verdadeira dama. Basta, como verão, pensar no cavalheiro, mais cavalheiro que conheçam, e reproduzir os seus exemplares comportamentos.

 

Regra nº 1: Abrir a porta do carro para o homem poder entrar, poupando-o a esse esforço braçal. Isto aplica-se mesmo que seja ele a conduzir.

 

Regra nº 2: Escolher e provar o vinho no restaurante, retirando essa responsabilidade dos demais convivas.

 

Regra nº 3: Deixar o homem passar à frente para entrar no elevador primeiro, independentemente da ordem de chegada, mostrando-lhe assim respeito (não vale olhar para o rabo, pois é coisa que um cavalheiro jamais ousaria fazer).

 

Regra nº 4: Puxar a cadeira para o homem se sentar confortavelmente, poupando-o, uma vez mais, ao esforço braçal de ser ele a arrastá-la (para criar músculo existem os ginásios, não é?).

 

Regra nº 5: Oferecer um ramo de flores a um homem especial, no aniversário ou noutra data a assinalar. Preferencialmente o ramo deve ser entregue no local de trabalho para que todos possam testemunhar o gesto e o apreço nutrido pelo homem em questão.

 

Eu tento seguir estas regras no meu dia-a-dia e posso dizer-vos que é muito reconfortante e divertido. A reacção da maior parte dos homens é de surpresa. Alguns oferecem resistência, mas no fundo ninguém consegue resistir a uma mulher moderna bem-educada. Não se preocupem com as reacções de estranheza que possam receber, com o tempo as pessoas habituam-se à boa educação.

 

Fico a aguardar o feedback das vossas experiências.

 

*Publicado em MariaCapaz

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 É com muito orgulho que anúncio a minha colaboração com o projecto Maria Capaz.

 

Congratulo as madrinhas da plataforma e espero contribuir para o seu sucesso.

 

Sempre fui mulher de arregaçar as mandar a novos desafios, e este é daqueles que me deixam com sorriso de orelha a orelha.

 

Espero que gostem do primeiro texto.

 

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Já fui alertada várias vezes para o “perigo” de ser apelidada de feminista. Já fui “acusada”, outras tantas, de ser feminista. Estes alertas ou acusações vêm normalmente da boca de quem considera, de algum modo, o feminismo como algo mau.

 

Cabem neste rótulo, segundo essas concepções, mulheres que querem ser superiores aos homens, mulheres amargas e obcecadas com todas as referências culturais de género, mulheres que querem ser iguais aos homens, imitando os seus comportamentos, mulheres que rejeitam todos os símbolos de feminilidade como, por exemplo, os cuidados com o corpo. Ou seja, mulheres que não se depilam, não se maquilham, não usam roupa justa, saias ou saltos altos.

 

Eu não sou esta feminista.

 

Sou uma feminista que olha atentamente para estas questões e tenta manter-se informada sobre o assunto. Sei que as últimas décadas trouxeram mudanças profundas no que diz respeito às relações entre homens e mulheres, em grande medida sustentadas pela entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho. O desempenho de uma profissão trouxe, efectivamente, autonomia, liberdade e poder de negociação (dentro e fora de casa) a muitas mulheres. Mas também sei que ao nível das desigualdades de género ainda há muita coisa a fazer, nomeadamente aumentar a representação das mulheres nos lugares de decisão, quer no mundo empresarial, quer nas instituições políticas.

 

Sou uma mulher, feminista, que sabe que a igualdade entre os sexos só pode ser pensada e conseguida se incluirmos os homens na equação. Por vários motivos. Porque os homens também sofrem as consequências do sistema em que vivemos, na medida em que, por exemplo, lhes é comummente negada a guarda dos seus filhos. Porque os homens não são os únicos perpetuadores da cultura patriarcal. Algumas mulheres também reproduzem os estereótipos que sustentam as desigualdades de género, como a ideia que elas são melhores na tarefa de criar e educar os filhos do que os pais. Porque, enfim, também existem homens feministas!

 

Sou uma feminista, imagine-se, que gosta de cozinhar, passar horas na cozinha a bebericar vinho e preparar um jantar para amigos ou a fazer panquecas e bolos para o namorado. Sou um pouco obcecada com a limpeza da casa, também. Sou vaidosa, gosto de comprar sapatos e acompanhar as tendências da moda.

 

Como se vê, as diferenças culturais entre homens e mulheres não me incomodam… aliás, sou fruto delas. Considero-me inclusivamente uma mulher, nalguns aspectos, bastante feminina. As desigualdades, por sua vez, chateiam-me e incomodam-me até ao osso, não fosse eu uma Maria Capaz.

 

*Publicado em MariaCapaz

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