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Quando foi a primeira vez que percebeste que eras gay? O que sentiste?

Apercebi-me tarde e não lhe dei importância. Diria que me apercebi quando dei conta que ao ver BayWatch a Pamela Anderson não me importava para nada, mas já o David Charvet e aqueles abdominais perfeitos provocavam coisas em mim.

 

Como tomaste a decisão de contar à tua família? Como correu?

Na verdade a minha irmã encarregou-se de falar com eles. Os meus pais aceitaram sem problema algum, preferem ter um filho gay que não ter um filho (porque basicamente era essa a situação, ou me aceitavam, ou me esqueciam). O meu irmão teve mais dificuldade em aceitar mas passado o primeiro ano o assunto normalizou-se e os dois natais seguintes foram celebrados em casa dele. A minha cunhada, super religiosa, foi quem insistiu que eu e o meu namorado dormíssemos na mesma cama.

 

No teu trabalho e no grupo de amigos todos estão a par da tua orientação sexual?

No meu trabalho sempre souberam desde o primeiro dia. É um ambiente de 70% mulheres e não senti em momento algum necessidade de esconder a minha sexualidade. É uma cidade grande e aqui há mais liberdade, nesse sentido, que em qualquer outro país que eu já tenha visitado. Os meus melhores amigos são todos gays, há excepção de 2 ou 3 da adolescência. Tenho amigos heterossexuais (com filhos) com quem me dou muito bem e o contacto com eles é agradecido porque é importante manter um contacto com a realidade (heterossexual). Mas quando é preciso falar de problemas é sempre com amigos gays. Ao ser uma vida à parte, só entre nós é que podemos discutir certas situações. Há certos assuntos que só se podem discutir entre gays porque são conversas que para um heterossexual são, no mínimo, escandalosas. E não me refiro só ao tema sexual.

  

Onde costumas fazer amizade com outros gays? Frequentas locais gay friendly?

Antes sim, muito bar, muita discoteca gay. Depois veio a internet e matou um bocado o relacionamento cara a cara (parece aquela canção Video Killed the Radio Star, dos Buggles). Agora já me aborreci da internet e reneguei completamente às apps de engate (Grindr, Scruff, etc). Como conheço gente? Ou através de amigos em situações sociais, ou em bares, até no ginásio… Sobretudo através de amigos. Na verdade é um assunto que tem andado na mente de toda a gente ultimamente. Onde se pode conhecer gente de qualidade, atractiva mas sem ser aborrecida? Quando descobrires, avisa-me.

  

O que pensas do facto de o estado se imiscuir na tua vida privada, na medida em que legisla sobre a possibilidade de poderes casar com outro homem, de poderes adoptar uma criança?

Acho que são tudo tretas políticas. Não acredito, sinceramente, que alguém seja tão pequeno de espírito para se incomodar por isso. Relativamente à adopção, acho um crime deixar um garoto morrer de solidão num orfanato na Rússia do que um casal de dois homens o possam adoptar, isso é que é realmente o crime. Pessoalmente comparo a luta actual pelos direitos LGBT com a luta pelos direitos das pessoas de cor dos EUA há pouco mais de 40/50 anos. É inevitável, é lutar contra a maré. Restam 4 velhos na aldeia do mundo com ideias contrárias e, quando esses 4 velhos morrerem, às novas gerações vai-lhes dar igual que um homem vá para a cama com outro homem ou juntos tenham um garoto, seja de que forma for.

  

Identificas-te com os movimentos LGBT?

Não. Não consigo. Queria mas não consigo. Vejo as carroças dos gay pride e sinto vergonha interior. Nunca na minha vida me disfarcei de mulher, não sei andar de tacões e acho que essas demonstrações só fazem mais mal que bem pela comunidade. Em NY há vários corpos da polícia, bombeiros, atletas, etc. que desfilam nessas demonstrações, com isso podia-me sentir identificado. Acho um espectaculo grotesco. A única coisa que acho que as associações LGBT fazem bem hoje em dia é dar apoio aos infectados pelo HIV. Dispõem de muitas clínicas para fazer testes rápidos, dispõem de acompanhamento psicológico, grupos de apoio. Isso sim acho muito completo.

  

O que achas da forma como os media, em geral, representam os gays?

Não me sinto identificado com nenhum dos clichés gay portanto também me custa identificar com o que divulgam os media. Eu sinto-me realmente como um gajo normal que tem a característica de gostar de outros gajos. Não é a característica que mais me define como pessoa, portanto é difícil eu identificar-me com alguém da televisão. Não sei se me faço compreender. Em todo o caso acho que a divulgação de temáticas gay melhorou muitíssimo nos últimos 10 anos e tem tendência a ser apresentado como um estilo de vida normal e saudável portanto acho que vamos no bom caminho, se bem que ainda falta algo. Falta um protagonista principal de telenovela gay. Falta um Herman José sair do armário. Falta um presidente da camara de Lisboa gay, falta uma pessoa respeitável sair do armário e rebentar com os estereótipos de uma vez por todas. É preciso que o mundo comece a ver a homossexualidade como uma característica não relevante, como a cor dos olhos ou das meias que uma pessoa leve postas naquele dia.

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Ser gay é duro

08.02.15

 

Ser gay é duro por vários motivos. As dificuldades, por vezes, seguem-se em catadupa.

 

Conheço jovens que sempre se souberam homossexuais mas, até hoje, quase adultos/as, nunca tiveram um/a namorado/a. Quando se apaixonam não demonstram os seus sentimentos com medo da reacção, temem ser "desmascarados/as" no grupo de amigos, perante a turma, na família... Resta-lhes conhecer pessoas através das redes sociais. Por si só isso não é um problema. O problema é só existir um caminho.

 

Conheço jovens homossexuais que apenas abandonaram as cidades onde nasceram porque não se viram capazes de ali viver a sua homossexualidade. Ou seja, namorar, casar...

 

Conheço homossexuais que nunca aceitaram o facto de se sentirem atraídos/as fisicamente por pessoas do mesmo sexo e se forçaram a manter relacionamentos heterossexuais. Entretanto, alguns/mas já casaram com pessoas do sexo oposto. Até quando vão conseguir anular os seus impulsos e vontade própria, não sei.

 

Conheço casais de homossexuais "casados/as" há mais de uma década que, ainda hoje, escondem da família mais próxima a sua relação. O medo da rejeição e o receio de causar sofrimento assim o determinaram.

 

Felizmente, não conheço homossexuais que tenham sido perseguidos ou maltratados fisicamente por causa da sua orientação sexual. No entanto, infelizmente, isso acontece.

 

 

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