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O Serafim, um dos homens que eu entrevistei para o livro, fala sobre depilação. Ele depila o rabo e fá-lo com a ajuda da sua esposa. Porque não!?

 

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«Se eu tivesse condições (…) para não estar sempre a fazer estas depilações, tirava tudo. Inclusive, já estive a ver os orçamentos para fazer isso. (…) Até foi por causa da minha mulher, que ela também reclama muito disso. [Reclama porquê?] Porque há certos sítios que ela não chega e que sou eu a fazer. Eu ajudo-a a ela e ela ajuda-me a mim, é engraçado. [Na parte de baixo fazes tudo? Tiras tudo até ao rabo?] Tudo. Só no rabo é que faz ela. Ela ajuda-me. [Pois, porque tu não consegues.] Não, não consigo. [Se bem que com o creme é mais fácil.] Sim, mas mesmo assim não consigo, ela tem de me ajudar. Quando é para ela sou eu a ajudar. É um momento daqueles enormes (risos). [De rir.] Não é de rir, é mais de, como se diz…é mais um momento nosso. Pouca gente faz isso, ou quase ninguém faz isso.»

 

Serafim, 23 anos, união de facto, 2 filhos, 12º ano, medidor.

 

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Subo a avenida e passo os olhos pelas montras. Vários cartazes publicitam roupas e acessórios para mulheres. Noto um padrão que nada nos diz sobre a última tendência da moda para o Verão que se aproxima. O que é comum às várias campanhas publicitárias é o facto de usarem imagens que mais parecem ter sido captadas em plena rodagem de um filme pornográfico. A meio não. No início. Antes da acção principal decorrer. As mulheres que exibem as roupas olham com desejo ardente para os transeuntes. Parecem estar seriamente empenhadas em seduzir quem passa.

 

Ora, se não são os homens que usualmente compram as roupas das mulheres, nem a maior parte das mulheres são lésbicas, todo aquele esforço sedutor é para quem? Para quê o decote exageradamente aberto, a boca e o olhar a pedir prazer carnal?

 

As mulheres vestem-se para ir à praia, para ir passear o cão ou a criança, para ir trabalhar, para ir ao supermercado, para ir a uma festa… Porquê centrar as imagens publicitárias no acto da sedução? A sedução é bem-vinda, o amor e a paixão enchem-nos a vida de excitação, mas podemos ter campanhas publicitárias que não se resumam a isso e, principalmente, não resumam as mulheres a isso?

 

A actriz Susan Sarandon afirmou recentemente a sua vontade de realizar filmes pornográficos, uma vez que os que existem estão centrados no prazer do homem ignorando a líbido feminina. Pois na publicidade passa-se a mesma coisa! Porque raio as mais diversas publicidades, desde o anúncio do carro ao dos sapatos, nos inundam com imagens de mulheres altamente empenhadas no acto da sedução, em posições e trejeitos híper erotizados?

 

Identifico, no entanto, dois tipos de anúncios em que as mulheres não nos são apresentadas como um pedaço de carne que se esforça por ser objecto de desejo. Publicidade a produtos para bebés e produtos para a casa. Mas se uma mulher veste lantejoulas e exibe um decote até ao umbigo para vender mobiliário, por que não o há-de fazer para vender umas fraldas? Porque, minhas amigas e meus amigos, a mãe e a dona de casa não são passíveis de ser transformadas em objectos de prazer.

 

Não sei o que é pior, se a excessiva sexualização do corpo feminino, se a completa “dessexualização” da mulher-mãe, mulher-doméstica. Ou bem que as mulheres são representadas como sedutoras natas ou como anjos do lar. A maior parte delas não é uma coisa nem outra, e são essas que compram!

 

* Publicado em Público

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