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A quantidade de informação que circula na Internet é colossal. Hoje, tudo, ou quase quase tudo, se encontra disponível à distância de um clique. Parece um chavão saído de um anúncio, mas é verdade. Podemos frequentar um curso à distância, acompanhar a vida dos nossos amigos, ler um livro, pesquisar desconhecidos ou qualquer assunto de interesse, comprar um carro ou um cão, candidatarmo-nos a um emprego, ver alguém ser abusado sexualmente, etc. etc. Esta crónica é sobre a última possibilidade.

 

A indústria da pornografia ganhou novos contornos, como outros sectores de actividade, com o advento da Internet. Existe um número sem fim de sites dedicados à partilha de vídeos e filmes pornográficos que facilitam a troca deste tipo de “serviço”. Algumas dessas plataformas são financiadas directamente pelo cliente, o qual paga pelos conteúdos, noutros casos o lucro advém da publicidade. Trata-se de um negócio que gera milhões, milhões e milhões de euros.

 

Há vídeos para todos os gostos, a três, a quatro, com um toque escatológico, chicotes e outros acessórios. Um sem fim de fantasias e fetiches pronto a consumir. Apesar da diversidade, uma característica comum aparece de forma mais ou menos transversal à pornografia heterossexual. As mulheres, regra geral bastante jovens (segundo o documentário “Hot girls wanted”, dentro do tema da pornografia, “adolescente” é o termo mais procurado na Internet), surgem numa posição subalterna, passiva, com o fim exclusivo de dar prazer ao homem ou homens que com elas contracenam. Até aqui, nada de novo, não é?

 

O mais surpreendente, pela negativa, é a quantidade de oferta de vídeos em que as mulheres encenam ser agredidas, humilhadas e sexualmente abusadas (cerca de 40% da oferta online, segundo o documentário acima referido). Um dos vídeos mais comuns mostra mulheres a serem forçadas a fazer sexo oral a um homem, que entretanto as insulta, bate-lhes, mete objectos fálicos na boca até provocar o vómito e depois as obriga a sorver o próprio vómito do chão, ou de um recipiente do género comedouro para cães.

 

Surgem-me duas questões de imediato: qual é o perfil destas jovens e quais são as características do público-alvo?

 

Segundo o mesmo documentário, por cerca de 300 euros é fácil encontrar jovens que aceitam submeter-se a este tipo de violência e, adicionalmente, ser filmadas a fazê-lo. Este documentário, baseado na realidade norte-americana, traça um perfil destas mulheres. O que as move é o dinheiro, a possibilidade de viajar e a ambição de serem ricas e famosas como, por exemplo, Kim Kardashian. Não são necessariamente oriundas de contextos sociais desfavorecidos, nem foram socializadas num contexto familiar ou social dos quais fizesse parte a pornografia ou prostituição (por vezes a linha que separa estas duas coisas é tão fina...).

 

Sobre o público destes vídeos, o documentário diz muito pouco ou nada, apenas que são muitos os homens a quem agrada este tipo de produções.

 

Debaixo do tapete das sociedades ocidentais, e sob a bandeira da crescente igualdade de género, que é real, existe ainda muito lixo. Este é um exemplo. Trata-se de desigualdade pura e dura, de subjugação de um sexo ao outro, de inferiorização e subalternização da mulher face ao homem. Se assim não fosse, teríamos à distância de um clique vídeos semelhantes, mas com homens no papel principal.

 

*Publicado em Público

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