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“Por que não se revoltam as mulheres?”, pergunta um grupo de sociólogos portugueses a propósito de um estudo nacional sobre desigualdades na distribuição do trabalho doméstico entre homens e mulheres. À luz das comparações europeias Portugal não fica muito bem no retrato. A modernidade dos costumes apontada pela elevada taxa de actividade feminina (uma das mais altas da Europa) embate no tradicionalismo da dupla jornada de trabalho das mulheres. O segundo turno começa em casa e o patrão não paga salário.

 

Iludamo-nos: Portugal, um país cheio de mulheres modernas, profissionalmente activas, economicamente independentes. Salto alto no pé, pasta com documentos importantes na mão, cigarro na boca, e lá vai ela, a mulher portuguesa, em direcção ao topo. O problema é a louça por lavar, a criança a berrar e o pó por limpar. Pousa a pasta, tira o salto alto, deita fora o cigarro… O topo do armário está sujo e precisa de ser limpo. Muitas vezes é só a esse topo que elas chegam, porque os outros topos há muito estão ocupados por homens. São poucas as mulheres a liderar grandes empresas ou a desempenhar as mais importantes funções de gestão e direcção, são poucas as mulheres a assumir cargos políticos de relevo, são poucas as mulheres a controlar a violência institucional como, por exemplo, as forças armadas. Já para não falar na hierarquia da Igreja Católica, no âmbito da qual os lugares de liderança estão formalmente vetados às mulheres.

Mas isso já se sabe. Ou não?

 

Pensar as desigualdades de género deste modo é um clássico. Há muito tempo que as mulheres, e alguns homens, vêm chamando a atenção para este desequilíbrio de poder. Questiona-se a dominação masculina, discute-se a introdução de quotas para assegurar a representação proporcional de mulheres, desenham-se planos estratégicos transnacionais para acabar com a violência doméstica.

 

Mais recentemente um novo olhar tem sido lançado sobre esta questão. O pensamento neo-clássico é aquele em que se equacionam não só as mulheres, mas também os homens, como “vítimas” de uma sociedade que determina, em igual medida, as suas vidas, os seus sonhos, as suas crenças, os seus comportamentos. Mas, a mudança é possível. Aliás, a mudança é incontornável. No dia-a-dia as pessoas resguardam-se no conforto da tradição, repetindo os velhos hábitos das gerações passadas, mas também reinventam novas formas de ser homem e mulher.

Mas os homens são vítimas de quê? Por mais paradoxal que possa parecer, os homens são vítimas da própria dominação masculina. Para que este modelo se perpetue, muitas são as expectativas que recaem sobre os homens. Deles se espera que sejam fortes, que ganhem muito dinheiro, que sejam capazes de sustentar uma família, que sejam altos e espadaúdos, que conduzam depressa, muito depressa, que sejam autoritários, que vão para a guerra, que carreguem os sacos das compras, que sejam os últimos a abandonar o navio, que sejam sexualmente vorazes e vigorosos, que sejam duros e pouco dados a sentimentalismos e, ainda, depois de tudo isto, que abram a tampa do frasco de doce de abóbora com nozes (uma delícia!) hermeticamente fechado há mais de um ano…

 

O frasco tem história. Lembro-me de tentar abrir o dito cujo e não conseguir. O tio António, na condição de único homem presente, ofereceu-se para o fazer. Não podia ter feito outra coisa, sentenciavam-no os olhares à sua volta. O coitado pegou-lhe de mil e uma maneiras, mas em vão. O suor escorria-lhe pelo rosto já ruborizado. A barba pingava. As veias pareciam querer saltar-lhe do corpo. Desistiu bastante tempo depois. Seguiram-se os comentários jocosos por parte do mulherio e compadres que entretanto chegavam e se sentavam, como que a assistir a um espectáculo. Mas o pior estava para vir. O frasco continuava fechado e alguém tinha de o abrir. A minha mãe tentou e conseguiu-o em dois segundos. Nesse momento, o constrangimento invadiu o espaço e senti pena dos tios Antónios deste mundo.

 

Eu, se fosse homem, revoltava-me. Não carreguem os sacos das compras sozinhos, não contenham as lágrimas e, sobretudo, não se sintam obrigados a abrir o raio do frasco.

 

* Crónica publicada no Público

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