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depilação masculina

 

Abro os olhos com esforço e olho-me ao espelho antes de ir para o chuveiro. O creme de noite parece estar a fazer algum efeito, mas não vale a fortuna que paguei por ele. Talvez o vinho e os digestivos de ontem não tenham ajudado. O que vejo…rugas, olheiras profundas, poros obstruídos e uma borbulha. Este fim-de-semana, a Sarita tem o aniversário do coleguinha do colégio. Posso dizer adeus à minha tarde de domingo… Não há problema, hoje a manhã é minha e vou mimar-me! Já tenho a depilação e pedicura marcadas, depois passo na farmácia para ver se o creme anti-rugas já chegou. Talvez consiga passar no centro comercial e comprar uma peça de roupa nova. Temos que aproveitar os saldos! Não tinha tanto tempo para mim há imenso tempo…

 

Apresento-vos o Artur. Podia ser a vizinha do segundo andar, a Carolina, mas não é. É o Artur.

Artur é um homem comum em vários aspectos, noutros não. Gosta de futebol, beber copos com os amigos e “flertar” com mulheres bonitas. Investe bastante do seu tempo no ginásio e procura manter-se jovem. Para Artur o tempo dos “homens porcos, feios e maus” já passou, palavras do próprio. A esposa incentiva-o, apesar das cenas de ciúmes quando Artur se arranja para sair à noite com os amigos. Os colegas do trabalho brincam com ele, ridicularizando os seus hábitos.

 

As rotinas de higiene e estética corporal de Artur, ainda que não passem de frivolidades, levantam questões profundas acerca da construção das masculinidades nas sociedades contemporâneas. As fronteiras que separam aquilo que é considerado masculino e feminino não são estanques. Pelo contrário, mudam ao longo do tempo. Mudam porque as pessoas não se limitam a reproduzir a tradição, as regras sociais. Mudam porque as pessoas são criativas e muitas vezes desafiam a sua cultura com comportamentos que surpreendem aqueles que as rodeiam.

 

Há muito tempo que as mulheres contestam as desigualdades de género. Reivindicam para si direitos que lhes estão vedados ou são de mais difícil acesso. A história de Artur ensina-nos que também os homens, pelo menos alguns deles, começam a reclamar para si alguns dos privilégios, tradicionalmente, reservados às mulheres. Isto é sobretudo verdade na esfera privada uma vez que noutros domínios, como o trabalho ou a política, a dominação masculina é uma evidência, ainda. São muitos os homens a desejar ser pais mais presentes do que aqueles que tiveram, a contestar com “baba e ranho” o velho ditado “homem não chora” e que, como Artur, querem manter-se jovens e atraentes por muito tempo. Isso exige muito do seu tempo e dinheiro, é verdade, mas a sua auto-estima a isso obriga. Outros homens mantêm-se alinhados com um imaginário mais tradicional do corpo masculino.

 

A mudança nem sempre acontece de forma pacífica. O conflito de interesses entre grupos de algum modo diferentes, como os homens e as mulheres, os autóctones e os imigrantes, os jovens e os idosos, os heterossexuais e os homossexuais pode assumir  diferentes formas. Neste caso, creio que se pode antever que o creme anti-rugas do Artur não vai originar manifestações ou barricadas. Imaginem, arremessos de frascos de creme de noite em plena baixa pombalina. Os estragos seriam imensos.

 

De qualquer modo, a ausência de pêlos no peito e a pele hidratada muito incomodam alguns dos colegas de trabalho de Artur. Eles presam uma noção mais tradicional de homem, no que se refere à dimensão corporal, e ele, Artur, provoca-os com a sua unha bem arranjada e pele cuidada. O escrutínio social é absoluto e intenso, tal como o big brother. São raros os comportamentos que escapam às classificações de género. Para o gosto dos mais tradicionais, o creme hidratante e a cera depilatória foram cientificamente desenvolvidos e melhorados ao longo dos anos para servir a vaidade das mulheres. É a natureza. Incontornável.

 

Trata-se de lutas simbólicas, entre os próprios homens, pela definição daquilo que é a masculinidade. Ora, a masculinidade, no singular, não existe. São muitas. Demais para caberem numa folha de papel (electrónico).

 

*Crónica publicada no Público

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