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O Manuel tem 35 anos, é professor de matemática e pai de duas meninas. Foi assim que se apresentou. Nos tempos livres gosta de jogar futebol com os amigos de infância e, para além de acompanhar o campeonato nacional, gosta igualmente de ver a Liga inglesa. É um homem vaidoso que gosta de se manter actualizado em termos de moda. Gasta uma parte significativa do seu orçamento em roupa e produtos para o cabelo. A queda de cabelo é algo que o preocupa bastante. No plano afectivo, Manuel considera-se um homem muito sensível e investe bastante do seu tempo na vida familiar. Chora sempre que recorda o nascimento das gémeas e não deixa passar em claro as datas especiais, como o aniversário de casamento.

 

Quão masculino é o Manuel?

 

Há um exercício muito simples que pode guiar-nos até à resposta. O exercício baseia-se numa escala de um a dez, cujos extremos representam o máximo masculino e o máximo feminino. Se imaginarmos uma escala deste tipo e nela nos tentarmos posicionar, são poucas as pessoas que escolherão as posições mais extremadas. A maior parte delas identifica-se com os valores intermédios, quatro, cinco ou seis. No caso dos homens, isto deve-se ao facto de valorizarem cada vez mais características associadas ao estereótipo feminino, como a sensibilidade ou os cuidados com o corpo e a aparência, e defenderem a igualdade entre os sexos.

 

Tal como o Manuel, todos conseguimos identificar na nossa própria personalidade e estilos de vida características que são culturalmente associadas ora ao universo feminino, ora ao universo masculino. Os homens e as mulheres reais deslocam-se entre estes dois universos, podem estar mais próximos de um do que de outro, mas vão buscar a ambos fontes de identidade. A verdade é que a masculinidade ou a feminilidade não existem em estado puro. Alguém consegue dizer, sou 100% masculino? O que seria tal coisa?

 

Para muitos dos homens contemporâneos o extremo da masculinidade é representado através de uma imagem antiquada com a qual não querem ter nada a ver. O homem mais masculino do mundo é, no seu entendimento, um homem machista, hiper-musculado, rude, agressivo, tradicional, pouco escolarizado, preconceituoso, e outras coisas más.

 

Este exercício leva-nos a questionar como os sentimentos, as competências, os objectos, os desportos, as profissões, os comportamentos, etc., são classificados como masculinos ou femininos. Por exemplo, numa altura em que vários chefs portugueses são reconhecidos internacionalmente podemos continuar a dizer que cozinhar é coisa de mulher? Perante gerações de jovens homens onde a prática da depilação se banaliza, podemos continuar a considerar os gabinetes de estética espaços femininos, dedicados aos cuidados das mulheres? Tendo em conta os inúmeros movimentos sociais em defesa dos direitos parentais e guarda partilhada das crianças, podemos continuar a classificar os cuidados e educação dos filhos como tarefas de mulher?

 

O resultado do exercício não é inequívoco e pode ser lido de duas maneiras diferentes. A primeira leitura diz-nos que os homens dos nossos dias estão cada vez mais parecidos com as mulheres, no sentido em que se apropriam de um conjunto de práticas e valores tipicamente entendidos como femininos. A segunda perspectiva levanta a suspeita de que alguns fragmentos da cultura ocidental têm hoje uma conotação menos masculina/feminina. Quanto ao Manuel, o resultado deu cinco e o seu qual é? 

  

* Crónica publicada no Público

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