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A dona Maria foi visitar os netos a Paris. Também ela lá viveu durante 37 anos, graças aos quais juntou uma pequena fortuna, construiu casa na vila onde nasceu e vive uma reforma desafogada. O regresso a Portugal foi mais complicado do que alguma vez previu. Os filhos não vieram com ela e agora vive, com o marido, numa grande vivenda de cinco quartos. Casa a mais para tão poucas visitas, pois na verdade são mais eles que vão visitar a família a Paris do que o contrário.

 

Este ano alugaram um apartamento mais para o sul de França, para os meninos, dois rapazes de 4 e 7 anos, poderem aproveitar a praia que tão bem lhes faz às alergias. Nem uma hora depois de pisar a areia a dona Maria já estava a ser chamada à atenção por estar vestida dos pés à cabeça e de lenço a cobrir os cabelos. Os polícias foram educados, simpáticos até, e explicaram que depois dos atentados mais recentes o uso do burkini tinha sido proibido naquela praia e a forma como se apresentava em muito se assemelhava ao tal traje muçulmano. Raúl, o filho, indignou-se de tal maneira que toda a família acabou por abandonar a praia. As férias foram um desastre pois, como devem imaginar, ninguém equacionou enfiar a avó Maria num biquíni.

 

Vou falar-vos um pouco mais da avó Maria. A avó Maria não pinta o cabelo porque isso desagradaria o marido, a avó Maria não usa verniz nas unhas porque sabe que o marido não aprovaria, a avó Maria não toma decisões sobre o uso do dinheiro em casa, a avó Maria já foi traída pelo marido, mas sempre escondeu isso da família, pensa que são coisas que os homens não conseguem evitar… A avó Maria decidiu todos os dias fazer aquilo que é esperado dela, com todas as limitações que esta decisão encerra.

 

A avó Maria tem 68 anos, mas poderia ter 35 anos. Marias há muitas, todos nós sabemos isso! Mais do que o dress code, é o espirito de submissão ao homem que aproxima as Marias de uma muçulmana que usa burkini na praia. Talvez, quem sabe, algumas dessas mulheres de burkini tenham uma relação mais igualitária com o marido. Talvez não.

 

De qualquer forma, cabe ao Estado garantir a igualdade de direitos entre homens e mulheres, protegendo os mais fracos, nomeadamente a sua integridade física. Quando é que isso passou a significar pôr o Estado a despir as mulheres conservadoras?

 

Eu não defendo o burkini, eu abomino o burkini e tudo o que ele significa. No entanto, não sou capaz de concordar que numa democracia se use a autoridade para fazer desaparecer desta forma aquilo que nos incomoda. E há tanta coisa que me incomoda!

 

*Publicado em Público

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12 comentários

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De Cláudia a 07.09.2016 às 17:29

Muito pertinente! Concordo, e achei muito, mas mesmo muito má, essa lei.
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De super mulher a 09.09.2016 às 21:04

O Conselho de Estado francês deu-nos razão! Mandou suspender a lei!
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De Anónimo a 16.09.2016 às 20:59

O Conselho de Estado francês suspendeu a lei porque foi cobarde. Deixou-se intimidar pela opinião pública, incendiada pela comunicação social na sequência de um lamentável incidente envolvendo dois agentes da autoridade e uma mulher muçulmana, e por uma oposição política oportunista e hipócrita.
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De super mulher a 18.09.2016 às 13:38

Suspender a lei foi tudo menos cobarde. É mais fácil criar leis deste tipo, do que o contrário. Também não me parece que concordemos em relação à opinião pública.
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De Anónimo a 22.09.2016 às 12:39

Também é mais fácil criar leis que punem com três anos de cadeia aqueles que lançam piropos do que educar as pessoas, mas aí já a Elisabete concorda. É o que se chama dar uma no cravo e outra na ferradura.

Graças a um lamentável incidente com dois agentes da autoridade que, claramente, excederam aquilo para que estavam instruídos (provavelmente devido à recência da lei), transformaram aquilo que seria uma decisão histórica e um passo firme no combate a um dos maiores atentados à liberdade das mulheres e aos valores defendidos pelas sociedades ocidentais numa questão política hipócrita e mesquinha. Em vez de clarificarem a interpretação da lei e corrigirem os procedimentos da sua implementação, simplesmente acabaram com ela, num acto de pura cobardia política. Reze para que o bebé que traz na barriga, se for menina, não venha no futuro a sofrer as consequências dessa cobardia.
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De Anónimo a 08.09.2016 às 18:52

"No entanto, não sou capaz de concordar que numa democracia se use a autoridade para fazer desaparecer desta forma aquilo que nos incomoda."

Não compreendo. A Elisabete, ainda recentemente, defendeu afincadamente uma lei que condena a 3 (TRÊS!!!) anos de cadeia quem cometer o crime hediondo de soltar um piropo na rua...
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De super mulher a 09.09.2016 às 21:03

Já eu não compreendo a comparação...
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De Anónimo a 16.09.2016 às 15:45

Nem eu esperava que compreendesse.
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De super mulher a 18.09.2016 às 13:35

Caro/a anónimo/a, Manter baixas expectativas face aos demais garante-nos menos desilusões. Parece-me uma postura sensata.
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De Anónimo a 16.09.2016 às 16:01

No caso dos piropos, defende uma lei que impõe três anos de cadeia como penalização por aquilo que considera "uma manifestação de dominação masculina, um mecanismo de promoção de insegurança das mulheres nos espaços públicos e de objectivação dos seus corpos". Já no caso das burkas ou dos burkinis, diz que "não concorda que numa democracia se use a autoridade para fazer desaparecer desta forma aquilo que nos incomoda". Percebe a incoerência ou quer que lhe faça um desenho?
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De super mulher a 18.09.2016 às 13:31

Caro/a anonónimo, se tem jeito para o desenho, força!
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De Anónimo a 22.09.2016 às 14:46

Por acaso até tenho jeito para o desenho, mas atendendo à coerência das suas ideias e à eloquência das suas respostas, receio que fosse uma perda de tempo.

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