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Não se dá a devida visibilidade à PES. A PES está em todo o lado. Não é preciso gritar ou ligar o 112 para pedir a sua ajuda. Tem um corpo de agentes incomensuravelmente maior do que qualquer outra força de segurança. Opera a nível internacional. Os agentes da PES são pro-activos, dinâmicos e empreendedores. Isto apesar de trabalharem sem contrato ou mesmo a recibos verdes, nem serem remunerados. São voluntários, digamos assim. Apesar da precariedade a que estão sujeitos, os PES são altamente qualificados nas leis sociais e deles se espera que frequentem com sucesso e desde tenra idade a escola da vida em sociedade. Pode mesmo dizer-se que a PES somos todos nós. Para quem ainda não percebeu do que estou a falar esclareço. Refiro-me à Polícia da Estabilidade Social (PES).

 

A vida em sociedade é complexa. Para que tudo se mantenha tal como está, a PES é fundamental. É da sua inteira responsabilidade o cumprimento das leis que regulam a forma como as pessoas vivem as suas vidas e se relacionam entre si. Quem pensa que é dono do seu nariz não se iluda.

 

modus operandi da PES é genial. Os PES não andam armados. Não precisam. Tudo se passa de uma forma muito subtil, muitas vezes fazendo uso do humor e da brincadeira. Toda a gente já presenciou um PES em acção ou, eventualmente, já vestiu a farda e soprou o apito da reprovação social. Lembro-me do dia em que o meu namorado conheceu as minhas duas tias gémeas lá da terra. Comemos cabrito ao almoço e bebemos vinho tinto. A conversa estava boa e as minhas tias davam sinais claros de aprovação, até que…sem me dar grande oportunidade de intervir, o Frederico se levanta e começa a lavar a loiça. As tias ficaram histéricas, perplexas e riram descontroladamente. Uma delas levantou-se apressadamente para tirar os pratos da mão do Frederico enquanto, ao mesmo tempo, o repreendia e acarinhava. Com tanta mulher na casa, não é preciso um homem lavar a loiça, disse-lhe em tom maternal. Este é um exemplo do trabalho incansável da PES. É verdade que já há muito homem a lavar a loiça, mas não desconsideremos este corpo de intervenção. As tias são incansáveis. Comigo agem de outra forma. Passam horas a dar-me dicas sobre costura, gestão doméstica e bordados. Oferecem-se para me ensinar os diferentes pontos. Pontos de contorno, pontos de laçada, pontos de cadeia, pontos de nó. Nunca desarmam, uma diz e a outra complementa. A mim falta-me o jeito e a concentração. Enfim, nem sempre os esforços da PES são completamente bem sucedidos.

 

A melhor unidade da PES, aquela que é chamada a intervir quando as coisas correm mal, é a unidade dos ML. A unidade dos Machos Latinos é composta exclusivamente por homens e é implacável. Dedica-se a garantir a continuidade da espécie numa versão tradicional ou, como eles costumam dizer, genuína e verdadeira. Portanto, o seu trabalho é interminável. O policiamento abrange todas as áreas da vida em sociedade. Desde a música que se ouve, àquilo que se come, ao desporto de eleição. Tudo é analisado ao detalhe. As leis são claras para todos e há que cumpri-las, defendem os ML. Toda a gente sabe que homem que é homem não veste cor-de-rosa. Homem que é homem não faz ballet. Homem que é homem não ouve música romântica. Homem que é homem não mete creme na cara. Homem que é homem não gosta de moda. Quando um olhar de reprovação não é suficiente, os ML não hesitam em arremessar a sua arma mais poderosa. Ouve lá, és panasca ou quê? Saíste-me cá um larilas! Isso é coisa de paneleiro, pá! És pior que as mulheres! Não és homem não és nada! Ainda que esta arma apenas atinja os que consideram a homossexualidade algo ofensivo ou as mulheres seres inferiores, os PES-ML vão exercendo o seu efeito controlador.

 

Depois de chamar os bois pelos nomes, a questão que eu coloco às pessoas é sobre a própria pertinência da PES. Será que precisamos dos PES (diferente de pés, muito úteis em termos de equilíbrio e mobilidade)? Os PES tornam-nos homens e mulheres mais felizes? A mim parece-me que não.

 

* Crónica publicada no Público

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