Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




 

Os estereótipos são um instrumento, por excelência, de compreensão do mundo. Ajudam-nos a arrumar a realidade em caixinhas, facilitam a organização do pensamento, mas ao mesmo tempo limitam a nossa capacidade de ver além das etiquetas que colocamos nas pessoas. A utilidade dos estereótipos termina quando a sua existência representa a negação da diversidade humana.

 

Os estereótipos de género são um bom exemplo de como estes auxiliares do pensamento são simplificações da realidade que não podem ser levadas demasiado a sério. Em termos abstratos o feminino e masculino tendem a ser representados como duas entidades completamente distintas, até opostas. Associamos determinadas características físicas, psicológicas e até intelectuais a mulheres e outras completamente diferentes a homens. As mulheres são mais sensíveis, os homens mais autoritários. As mulheres gostam mais de novelas, já os homens de futebol. As mulheres interessam-se mais por moda e os homens por automóveis. Todos nós conseguimos identificar as características que são associadas a umas e outros, independentemente de concordarmos com essa divisão…

 

Ana é uma mulher com braços de ferro. Nunca trabalhou fora de casa, mas também não encaixa no estereótipo da dondoca. Vive numa grande casa que faz questão de manter a brilhar e para além disso tem a seu cargo ou participa em muitas tarefas fisicamente exigentes. Rachar lenha, matar animais, amassar grandes quantidades de farinha e preparar o forno para cozer o pão são algumas delas. Digamos que a Ana não precisa de um homem para lhe abrir o frasco de doce, a Ana é a pessoa a quem podemos pedir para o abrir quando não o conseguimos fazer.

 

Quando penso na maior parte dos homens que conheço ou com quem me cruzo no meu dia-a-dia, seja no trabalho, no supermercado ou entre o meu grupo de amigos mais chegados, não vejo muitos que conseguissem ganhar um braço de ferro à Ana. Alguns não conseguem abrir o frasco de compota hermeticamente fechado há anos.

 

Os estereótipos são como um desenho grosseirão de uma criança de poucos anos. Conseguimos perceber que está lá uma casa, o sol, as nuvens, mas os tamanhos, as formas, as cores não são reais. Muitas vezes têm elementos ficcionados, como uma porta no meio de uma parede, um animal que não existe.

 

A realidade é bem mais complexa e matizada do que os estereótipos que a representam. A Ana é real. A Ana é uma mulher.

*Publicado em Público

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


5 comentários

Sem imagem de perfil

De Cláudia Dias a 03.05.2016 às 09:54

Como estudante de Psicologia (ou ex),sei bem que os estereótipos são, no fundo, uma capacidade adaptativa e de facilitação cognitiva para conseguirmos viver neste mundo tão complexo... é pena as consequências que tem! O mal não são os estereótipos em si. Todos os temos, mesmo os que dizem que não! O mal é quem os usa para praticar o mal, a exclusão!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 05.05.2016 às 01:14

Não vejo a Elisabete como excepção ao estereótipo que tanto pretende combater, antes pelo contrário. Não me parece que aquela menina franzina, de vestidinho azul, com os bracinhos escanzelados que se vê no Facebook (sim, fui lá coscuvilhar, mas, estando aberto ao público, não creio que tenha cometido algum crime) seja capaz de rachar lenha, matar animais, amassar grandes quantidades de farinha ou abrir um frasco hermeticamente fechado há anos. Aliás, como também não conseguiriam as dezenas de mulheres que eu conheço. Portanto, a tal Ana com braços de ferro não é a regra mas antes a excepção, uma espécie de Brites de Almeida dos tempos modernos, e, como tal, não chega para provar teorias.
Aqui há uns tempos, a minha mulher ligou-me do supermercado. Queria que eu fosse lá ter com ela porque tinha um pneu furado. Disse-lhe que não podia ir, que mudasse ela, que era uma coisa fácil. Resultado: insultou-me do piorio e telefonou ao pai. Ficou dias sem me falar. Recusou-se a mexer nos pneus porque - e passo a citar - "tal tarefa exige força, suja as mãos, estraga a roupa, parte as unhas, em suma, é trabalho de homem". Os estereótipos só são negativos quando distorcem a realidade, quando passam uma ideia errada, quando criam um falso padrão. Não é o caso.
Sem imagem de perfil

De Raquel Lima a 25.05.2016 às 21:19

Boas!!!

Adoro seu blog. Muito original. Continuação de um bom trabalho!!

Raquel Lima
http://raquel-limaoficial.blogspot.pt/
Imagem de perfil

De super mulher a 26.05.2016 às 10:57

Raquel muito obrigada! Fico super contente! :)
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.05.2016 às 00:06

A Elisabete demorou menos de 12 horas a responder ao comentário da Raquel Lima. Já o meu, escrito a 5 de Maio, continua sem resposta ao fim de 25 dias. É mais fácil agradecer um elogio do que contra-argumentar uma crítica fundamentada, não é? Pois é, mas são essas atitudes que definem o carácter das pessoas.

Já agora, desculpe a minha curiosidade, mas a Elisabete já visitou o blogue desta sua admiradora, a Raquel Lima? O que pensa dele? Eu cá gostei muito! ;)

Comentar post



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Abril 2016

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930