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Bem sei que os Minions não precisam de mais publicidade, mas quando dou por mim à procura de uma prenda que não seja super-feminina ou hiper-masculina, a verdade é que estes bonecos amarelos parecem uma miragem no deserto.

 

Por altura do Natal vejo-me em sítios que me proporcionam um autêntico confronto com os primórdios da socialização de género. Refiro-me à maior parte das lojas de brinquedos, as quais fazem lembrar verdadeiras fábricas de fazer homenzinhos e mulherzinhas. Podiam simplesmente vender brinquedos para fazer pessoas criativas e inteligentes, mas não, vendem muito mais que isso.

 

O problema é que a maior parte dos brinquedos reproduz uma organização social extremamente tradicional, em que as mulheres e os homens desempenham papéis sociais muito diferenciados, que já nem sequer têm muita correspondência com a realidade dos nossos dias. Parece que a indústria dos brinquedos não evoluiu tanto como a própria sociedade. Parece que é comandada por um grupo de malfeitores, cujo fim último é preservar a ordem das coisas, limitando demasiado aquilo que ensinamos às nossas crianças. Reconheço-lhes o mérito de atacarem o problema na raiz, condicionando desde tenra idade aquilo que depois vão ser consideradas as “aptidões naturais” dos homens e das mulheres.

 

Tudo começa com uma prenda de Natal!

 

Dirijo-me para a secção das meninas e fico encandeada com tanto brilho. Lantejoulas,  maquilhagem, tutus e pompons, estojos de cabeleireiro, pulseiras e colares de brincar, coroas e tiaras, Barbies muito loiras e magras, princesas com vestidos longos e rodados, mais brilhantes e pérolas de brincar. Predomina o rosa choque, rosa bebé, lilás, prateado, dourado… Que enjoo! Ao lado, os trens de cozinha, as tábuas de passar a ferro, as formas para bolos, o aspirador de brincar, os carrinhos de bebé, fraldas até… Portanto, tudo o que é necessário para educar uma criancinha para ser uma pessoa hiper-centrada na aparência, abnegada dona de casa e mãe dedicada. Tarefas domésticas, beleza e filhos. É isto que os brinquedos destinados especificamente às meninas estimulam.

 

No corredor dos rapazes, por sua vez, começa a preparação para o campo de batalha, para a guerra, para o combate, para a morte! Metralhadoras, espingardas, pistolas, espadas, tanques de guerra, helicópteros, carros de bombeiros e de polícia, super-heróis com super-poderes, granadas e demais material bélico. Aqui os tons predominantes são o verde tropa, preto, cinza, azul… Todos estes brinquedos preparam os futuros homens para quê afinal? Só se for para serem excelentes jogadores de Dead Rising ou Mortal Kombat! Como não precisarão de cuidar dos filhos, nem de cozinhar uma refeição, os Nenucos e os trens de cozinha vão para o corredor das meninas.

 

É Natal, é Natal, lá lá lá!

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2 comentários

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De Anónimo a 08.01.2016 às 12:58

Elisabete, deixe-me contar-lhe uma pequena história de vida que é a minha, mas que podia ser a de milhares de homens por esse Portugal fora:

Quando o meu primeiro e único filho nasceu, eu nunca imaginei que um motivo de tão grande felicidade seria também o prenúncio de morte de um casamento que, não sendo perfeito, tinha tudo, ainda assim, para ser uma história com final feliz. Pouco tempo depois, fruto de uma profunda depressão pós-parto, a minha mulher entrou numa espiral auto-destrutiva que transformou a nossa vida de sonho num inenarrável pesadelo. Nem as consultas psiquiátricas, a medicação e o acompanhamento psicológico evitaram o desfecho que se verificou ao fim de dois penosos anos, quando ela decidiu fugir de casa, abandonando-me a mim e ao nosso filho. E sabe o que eu fiz nessa altura? Talvez porque, em criança, brinquei com os tais super-heróis com super-poderes que tanto a irritam nas prateleiras das lojas de brinquedos, mantive-me firme no meu posto e não virei a cara à luta. Já a minha esposa, que tanto brincou às casinhas e às mamãs, foi incapaz de lidar com as meras contingências da vida real e fugiu.

Hoje, como pai separado, cuido do meu filho, educo-o, lavo-o e alimento-o. Acumulo as funções de pai e de mãe e cá me vou safando. Perdoe-me a imodéstia mas, eu sim, sou um super-pai! E enquanto houver histórias como a minha, a sua tese de que os brinquedos não preparam os futuros homens para cuidarem dos filhos não passará de uma generalização estúpida e uma conjectura ridícula, sem fundamento absolutamente nenhum. Nenhum homem será mau pai por brincar com tanques e soldadinhos, tal como nenhuma mulher será boa mãe por brincar com carrinhos de bebé.

Surpreende-me mesmo que uma pessoa, que se mostra tão enérgica na luta contra as injustiças e os preconceitos sociais, seja capaz de criar estereótipos absurdos deste género, que em nada diferem, na sua essência, das teorias do Pedro Arroja quando este diz, por exemplo, que "em África não se trabalha porque lá gostam muito de sexo". Ambos já nem conseguem disfarçar a visão cega, mesquinha, preconceituosa, estigmatizada, incapaz de ver além do mundinho que criaram em torno do seu próprio umbigo. Quanto ao Pedro Arroja, não creio que exista solução porque, como diz o povo, burro velho não aprende línguas, mas a Elisabete ainda vai a tempo de se curar desse veneno que lhe corre nas veias e lhe tolhe a visão. Basta querer.
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De super mulher a 10.01.2016 às 20:27

Caro anónimo,

Lamento a interpretação que faz do meu texto e opinião.

Já em vários artigos defendi que os homens podem ser tão bons pais como qualquer mãe. Defendo inclusivamente que os homens devem ter mais direitos e protagonismo na educação das crianças, o que aliás muitos homens das novas gerações defendem para eles próprios. Todos os estudos apontam para isso. Dentro da esfera doméstica é exactamente no que diz respeito à parentalidade que mais igualdade se tem alcançado, embora ainda haja aspectos a mudar.

Quanto aos brinquedos, eu considero que, APESAR DELES, os homens podem ser excelentes pais.

Obrigada por partilhar a sua história.

Elisabete

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