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Maria Amélia é uma quarentona roliça e divorciada que trabalha na pastelaria lá do bairro há mais de 20 anos. Mas não é isso que faz dela a pessoa mais badalada da rua. O que a distingue e lhe granjeia fama local é o hábito de ir para a porta do estabelecimento mandar piropos aos miúdos da Faculdade de Medicina. São jovens, bem constituídos, transbordam saúde e vitalidade, diz ela com os olhos bem arregalados enquanto me serve o café. Parece que está a falar de uma mousse de chocolate ou, para quem preferir os salgados, de um belo leitão assado.

 

Os vizinhos queixam-se e fazem questão de reproduzir os piropos da dona Maria Amélia. Aliás, repetem os piropos vezes sem conta como se se tratasse de um teste à integridade moral de quem os ouve. Como não fico ruborizada deduzo que levo nota negativa. Chumbada! Esta ainda deve ser pior que a Maria Amélia, oiço ou imagino ouvir ao longe, pelas costas.

 

Aqui vai uma súmula de algumas preciosidades com que ela brinda a rapaziada:

 

Ai (suspiro profundo e audível), tanta coisa boa na rua e eu aqui fechada a trabalhar... Bebé anda aqui à professora que eu tenho umas coisas para te ensinar! Comia-te todo! Ó escuteiro, queres ajuda para montar a tenda!? Ó carapau anda cá à cozinheira! Descascava-te a banana toda! Ó piloto leva-me ao céu! Para tocar só me falta o instrumento! Se me deres a batuta até te faço um concerto! Não sei música mas soprava-te a flauta! Gostava tanto de experimentar esse saxofone! (Talvez por acalentar o sonho de ser cantora, a temática da música seja especialmente querida da Maria Amélia). Ó brioche precisas de fermento!? O teu pai devia ser marinheiro para teres um mastro desse tamanho! Ó ferrão anda cá à flor! Ó joia mostra-me essas pérolas! Ó leiteiro quando fazes a entrega!? Dá-me esse pincel e faço-te uma obra de arte! Ó bombeiro mostra lá a mangueira!

 

E vai ficando pior ao ponto de não poder continuar a partilhá-los convosco. Pelo menos aqui.

 

Os vizinhos não gostam do comportamento da dona Maria Amélia. Alegam que ela é sexista, ordinária e uma má influência para os filhos adolescentes. Tento reflectir sobre o assunto e questiono-me se é assim tão mau gritar uns elogios mais picantes aos rapazitos. Talvez eles nem levem a mal. Durmo sobre o assunto e acordo a pensar de uma outra forma. A verdade é que a maior parte das vezes que um desconhecido se dirige a mim, na rua, para atirar qualquer coisa obscena para o ar eu não costumo gostar. Irrita-me que um homem se ache no direito de fazer comentários sobre o meu corpo. Quando os piropos não são ordinários, por vezes, rio do ridículo da situação. Aposto que a maior parte deles se eu reagisse demonstrando interesse não saberia o que fazer.

 

O que me incomoda mesmo são os exibicionistas. Já vi tantos que lhes perdi a conta. Mas depois do medo ou espanto vem sempre a pena. Coitados. E isso a dona Maria Amélia não faz. Enquanto grita aos jovens rapazes mantém os imponentes seios bem guardados e a saia para baixo. Aliás nunca ouvi falar de mulheres exibicionistas. Será que as há? Na verdade a Maria Amélia só existe na minha cabeça. Criei-a para vocês. 

 

* Crónica publicada no Público

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