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O último ensaio filosófico de José António Saraiva (JAS) deixou meio Portugal indignado, uma vez mais, sobretudo as mulheres. Quanto a mim, continuo a achar que JAS é um iluminado incompreendido.

 

A crónica consiste numa reflexão sobre o amor, de nível elevadíssimo, mas baseada em factos concretos para que os menos capazes possam acompanhar a profundidade do seu pensamento. Factos muito concretos, aliás. Trata-se de um levantamento exaustivo dos pretensos namorados de uma figura pública durante cerca de oito anos, que servem de prova para os perigos do excesso de amor. Para se documentar JAS consultou as revistas cor-de-rosa mais sérias do país. A informação é, portanto, fidedigna. Quanto à relevância esta é inquestionável.

 

Eu conheço um homem que sofre do mesmo mal, excesso de amor. Trata-se do Zé Manel lá do bairro. Tal como JAS, eu acho que é importante alertar a população para este problema e por isso trago-vos a sua história.

 

Zé Manel viveu com a primeira esposa, Leonor, filha do mecânico da esquina, durante dois anos. Quando se juntaram ele tinha 23 anos e começara a fazer bolos há já três. Separaram-se em 2007, quando a filha de ambos ainda não andava. No mesmo ano, o pasteleiro namorou com a cabeleireira Ângela Rebelde e, poucos meses depois, não escondeu de ninguém que “andava” com a esteticista Nina. Nina, a brasileira, e não a do café Laranjeira. O romance não durou e no início de 2008 Zé Manel, a estrela da Pastelaria Canela, começou a namorar Paula Costa. Contudo, em Abril apareceu no supermercado com a secretária Lisa Lopes a comprar pão, presunto e uma garrafa de Lambrusco. O namoro não durou, e no Verão de 2009 Zé Manel assumia viver feliz ao lado da florista Madalena, a ruiva. No final de 2009 Zé Manel envolveu-se com a costureira Betty, antes de um fugaz namoro com a dona do café Venha Cá, a Manuela dos caracóis. Em 2010, corria o boato no bairro que o Zé Manel vivia um tórrido romance com a peixeira Joana Santos, e mais tarde com a empregada de mesa Beatriz. Em 2011, Zé Manel publicou uma foto no Facebook aos beijos com Anita, filha da dona da Lavandaria Tudo Limpo, ex-namorada do primo da dona Amélia dos bolos. Em Agosto do mesmo ano, assumia o namoro com Henriqueta a empregada de limpeza do advogado Joaquim Fernandes, mas também ouvi dizer que estava envolvido com Rute, a cozinheira do restaurante que fica ao lado da papelaria da Teresinha. A última relação assumida antes de se casar com Leonor Vieira, auxiliar na escola Fernando Pessoa, foi com a Felismina que veio de Castelo Branco viver com a Tia Maria, por sua vez vizinha da prima Jerusa onde Zé Manel passava os fins-de-semana em miúdo, quando os pais viajavam. Desde que o conheço contei 15 mulheres, o que dá uma média de quatro namoradas por ano, fora os que não são do conhecimento da Lurdes, a senhora que me depila as axilas e me vai pondo a par de tudo o que se passa na rua.

 

Esta dissecação da vida alheia tem, portanto, o objectivo de alertar o leitor para o perigo do excesso de amor. Acusações à minha pessoa, ou a JAS, de difamação ou violação da intimidade serão imerecidas e injustas. Quanto a mim, sei que Zé Manel não o vai fazer, já Marta... Para ele, e para a grande maioria dos homens, ser namoradeiro é um atributo positivo, uma qualidade, um elogio. Para as mulheres, pelo contrário, trata-se de uma insinuação sobre a sua falta de integridade e seriedade. São essas desigualdades simbólicas profundamente enraizadas na nossa sociedade que JAS reproduz na sua mais recente crítica de costumes. Um clássico.

 

*Publicado em Público

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