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José António Saraiva (JAS), como o próprio defende, é digno de um Nobel da Literatura. Depois de ler algumas das suas populares crónicas qualquer pessoa concordará com ele, a menos que não o compreenda. A forma perspicaz, brilhante até, como pega em assuntos como a igualdade entre homens e mulheres deixa-me extasiada.

 

Sei que muito do que JAS escreve tem gerado reacções adversas e muitas vezes excessivas, o que me deixa um pouco perplexa, confesso. Será que os leitores não conseguem captar a mensagem implícita? Não perceberão que JAS é um mestre da comicidade, um catedrático da ironia? Experimentem ler as crónicas de JAS ao contrário e verão que ele é um progressista radical.

 

Deixem-me guiar-vos neste exercício. Por exemplo, quando, na última crónica sobre o acesso das mulheres ao mercado de trabalho, JAS afirma que a sociedade portuguesa pré-moderna era matriarcal, é óbvio que ele está a dizer, com muita subtileza, que era patriarcal. Ao defender que existia um equilíbrio natural nas famílias dos tempos idos, na realidade JAS está, sapientemente, a chamar a atenção para o desequilíbrio de poder que existia no seio dos casais, para o fenómeno da violência doméstica, para os tempos em que, enfim, uma mulher tinha que pedir autorização ao marido para sair do país.

 

A afirmação “as mulheres chegam a casa estafadas ao fim do dia de trabalho, não tendo paciência para os filhos” é, na verdade, um elogio às mulheres que conseguem conciliar o  trabalho e a família, dando tanto ou mais amor aos seus filhos do que nunca.

 

Ainda a respeito da família (esta é, realmente, brilhante), quando diz que “os filhos beneficiam menos da presença das mães”, JAS está a chamar a atenção para as profundas mudanças sociológicas que têm atravessado as sociedades ocidentais ao nível da parentalidade. Para os menos esclarecidos, JAS refere-se ao facto de os homens, hoje, serem pais mais carinhosos, mais presentes e mais participativos na educação e cuidados com os filhos. E quem beneficia com isto, claro está, são sobretudo as crianças.

 

JAS escreve “ninguém sabe como resolver os problemas que o progresso levantou”, mas o que ele nos quer dizer é que a conquista de direitos por parte das mulheres é um dos indicadores mais relevantes do desenvolvimento social e humano das sociedades ocidentais e que isso já ninguém nos pode tirar.

 

A sua entusiasmante crónica acaba com a pergunta “as mulheres são hoje mais felizes?”, que JAS classifica como “politicamente incorrecta” e para a qual insinua uma resposta negativa. Ironia da melhor qualidade. Trata-se de uma pergunta que as mulheres fazem a elas próprias, como ele bem sabe, e que na maior parte dos casos tem uma resposta simples e inequívoca.

 

Como especialista em JAS posso assegurar-vos que a insinuação negativa deve ser lida do seguinte modo: Sim, as mulheres contemporâneas são mais felizes com a possibilidade de exercer uma profissão e a sua independência financeira do que as mulheres de gerações anteriores, cujas vidas eram em grande medida condicionadas pelas vontades dos maridos. Isso não quer dizer que as mulheres estejam menos centradas na família, ou que tenha diminuído o desejo de casar (formal ou informalmente) ou ter filhos.

 

Na realidade a maior parte das mulheres usa toda a liberdade que adquiriu nas últimas décadas para, exactamente, constituir família, empenhando-se na manutenção das suas relações amorosas e, também, na educação dos filhos. Tal como os homens. Não é, José António Saraiva?

 

* Crónica publicada no Público

 

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