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As estatísticas nacionais e internacionais são unânimes a sentenciar uma vida mais curta para os homens. Em Portugal, um homem pode esperar viver, em média, menos seis anos do que uma mulher. Essa diferença é maior ou menor conforme o país, mas o sentido é sempre o mesmo. Os homens têm uma esperança de vida à nascença menor do que as mulheres em todo o mundo ocidental.

 

Quem começou a elencar os argumentos de ordem física, hormonal, genética e afins pode parar. Sem os modernos e robustos sistemas nacionais de saúde, as mulheres continuariam, como era habitual nas sociedades passadas, a morrer mais cedo do que os homens. As elevadas taxas de mortalidade associadas à gravidez e parto assim o explicavam. Resolvido esse problema, são agora os homens a protagonizar mais mortes precoces. Mas, como e porque se matam os homens?

 

Os homens matam-se a tentar mostrar que são homens. Fazem-no desafiando os limites das suas próprias vidas. Procuram projectar através de alguns comportamentos e consumos como são corajosos, valentes, destemidos e arrojados. Infelizmente não têm sete vidas como os gatos. Se tivessem gastá-las-iam todas.

 

Imaginem um jogo de computador que consiste em viver a vida sem perder as sete vidas. Quem vai jogar é o Joaquim.

 

O jogo começa ao volante de um carro. Joaquim não joga para perder e… pé a fundo no acelerador! O carro chega aos 210 km/hora (é o que mostra uma mensagem que aparece no ecrã do computador) e ele vibra com a adrenalina. Entretanto, a campainha de casa toca e foi o suficiente para Joaquim se distrair. O despiste foi aparatoso e o carro fica destruído. Restam-lhe seis vidas.

 

Recomeça o jogo numa festa de casamento. Joaquim aparece sentado numa mesa com amigos a fumar um charuto, descontraidamente. Antes de perceber como funciona o jogo soa um alarme e perde outra vida. O alarme vinha acompanhado com uma mensagem que dizia cancro no pulmão. Restam-lhe cinco vidas.

 

Joaquim abandona o cenário da festa e passa para o cenário boémio do café. Bebe um copo de whisky. Pede um segundo copo e, de repente, dispara outro alarme. Desta vez a mensagem diz cirrose… Restam-lhe quatro vidas.

 

O jogo prossegue num cenário de gangsters onde Joaquim tem à sua disposição drogas e prostitutas. Não resiste à cocaína, depois experimenta heroína e morre por overdose. Restam-lhe três vidas.

 

Joaquim volta ao mesmo cenário para usufruir da companhia das prostitutas. Não tinha pontos suficientes para comprar preservativos, mas mesmo assim decide avançar. Apanha o vírus HIV e morre com SIDA. Restam-lhe duas vidas.

 

Chateado com o jogo, Joaquim decide seleccionar o cenário que lhe parece mais inócuo e inofensivo. Surge no meio de um estaleiro de obras. A empreitada é uma barragem. O maior perigo são as derrocadas de terra e foi assim que Joaquim perdeu mais uma vida. Agora, resta-lhe apenas uma.

 

Ironicamente Joaquim perde a última vida e consequentemente o jogo suicidando-se.

 

Na vida real, a maioria dos homens é bastante diferente de Joaquim, porque não tem sete vidas. Apenas por isso. De resto são bastantes os que, tal como ele, morrem em acidentes rodoviários, morrem com problemas de saúde derivados do consumo excessivo de álcool, drogas  e tabaco, morrem em acidentes de trabalho, morrem devido a doenças sexualmente transmissíveis, ou suicidam-se. Tudo somado dá os seis anos de vida a menos do que as mulheres.

 

* Crónica publicada no Público

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