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A música é uma parte importante da nossa cultura. Através dela celebram-se valores, sentimentos, ambições. Nas sociedades ocidentais canta-se, e muito, sobre como as mulheres são seres malignos, menores, sem moral, bem como histórias de abusos, maltratos e até incentivos a que estes aconteçam. O hip hop é especialmente fértil neste tipo de temáticas. Refiro-me a canções que pretendem legitimar a superioridade masculina, as quais colhem algum êxito entre as camadas mais jovens. Muitos destes hits não são produção nacional, mas os nossos miúdos e miúdas conhecem-nos bem. Efeitos da globalização.

 

Deixem-me dar-vos alguns exemplos. Comecemos por um dos álbuns de rapmais vendidos de toda a história, The Marshal Mathers LP de Eminem. Neste álbum constam temas como Amityville, onde surgem pela boca de Bizarre estrofes intrigantes como:

“I fucked my cousin in his asshole, slit my mother's throat, Guess who Slim Shady just signed to Interscope, My little sister's birthday, she'll remember me, For a gift I had ten of my boys take her virginity, And bitches know me as a horny-ass freak” (imaginem isto cantado em português)

 

Do Brasil não vem só a Bossa Nova, mas também pérolas como as cantadas pelos célebres Racionais MC’s em Mulheres vulgares:

“Pra ela, dinheiro é o mais importante. (…) Luta por um lugar ao sol. Fama e dinheiro com rei de futebol! (ah, ah!)  Ela quer se encostar em um magnata,que comande seus passos de terno e gravata. (…) Mulheres Vulgares, uma noite e nada mais!”

 

Ainda em português, não poderia deixar de referir o polémico tema do angolano C4 Pedro, cujo videoclip foi, inclusivamente, retirado da Internet, valendo um pedido de desculpas do artista. Azar da Belita chama-se a música e relata um episódio de assédio sexual perpetrado pelo próprio:

“Eu não sou do tipo que namora, mas sou do tipo de te arrastar sem demora. Eu deixei o meu Porsche lá fora. Então bazamos sem medo. Avisa na tua amiga que ela é do C4 Pedro. Bazamos todos pro meu castelo. Arranja mais uma pro Ng. Eu trago o Big Nelo. Niggas espalhados na área vip tipo ébola. (…) É melhor não duvidar. Aceita agora, aceita! Porque depois vai ser pior. Esse é o azar da Belita. Aceita agora, aceita! Porque depois vai ser pior.”

 

E poderia continuar a dar mais exemplos, mas não o vou fazer. Para encerrar este rol de música sexista, machista, misógina e outros adjectivos afins, deixo-vos antes uma lufada de ar fresco com Capicua, uma rapper portuguesa. Depois de músicas sobre violações e meninas virgens, sobre como as mulheres são fúteis e oportunistas, ou sobre assédio sexual, partilho a letra deAlfazema, uma música do álbum Sereia Louca:

“Somos o fruto da cultura que nos tolhe, que nos escraviza pela expectativa que escolhe, impor em nossos corpos tortos pra caber no molde, impor em nossos sonhos mortos para servir a prole (…) com tradições nascem contradições opressivas, como lições para sermos fracas e reprimidas, sem auto-estima postas de lado como um talher, não foi pra isso que nasci uma mulher, não vou cumprir com a puta da expectativa, não é pra ela que oriento a minha vida”

 

A música precisa de mais Capicuas

 

*Publicado em Público

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