Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A entrevista com Filipe demorou cerca de 3h30m e decorreu numa esplanada de um restaurante do seu bairro. Filipe esteve sempre muito descontraído ao longo da entrevista e a empatia foi facilmente criada. Muitas vezes as suas intervenções, mais do que respostas às perguntas que lhe eram colocadas, eram evasões que de alguma forma reflectiam as suas angústias pessoais. O seu ar informal não deixava adivinhar a série de cuidados com o corpo, nem o tempo e dinheiro que investe em roupa.


Filipe tem 37 anos, é realizador de cinema, actividade que combina com a de professor numa escola profissional ligada às artes audiovisuais. Apesar de fazer o que sempre desejou, confessa viver um momento de grande indecisão. O principal factor é a instabilidade financeira associada a sua actividade de realizador, que já o obrigou a recorrer por diversas vezes à ajuda financeira dos pais. Actualmente, equaciona alternativas que passam pela mudança de área de actividade


Filipe sempre viveu em Lisboa, excepto os meses que passou em Nova Iorque a frequentar um curso de representação. No regresso deixou a casa dos pais para começar a viver sozinho, tinha então 24 anos. Estudou até ao 9º ano num colégio privado, tal como a irmã com quem mantém uma relação muito próxima. O ensino secundário decorreu numa escola pública localizada numa “zona de luxo”. Seguiu-se o bacharelato em realização de cinema. Durante a infância e adolescência as férias eram passadas em Sesimbra, onde os pais tinham uma casa de férias, meses que associa a uma maior liberdade.


Tanto o pai como a mãe têm habilitações literárias de nível superior. Ele é engenheiro e ela abdicou do trabalho para ficar em casa a cuidar dos filhos. Ao mesmo tempo que caracteriza os seus pais como um casal conservador, reconhece-lhes alguma abertura e agradece a liberdade de pensamento e acção que sempre lhe foi dada. A relação com a mãe já foi muito próxima, ao ponto de Filipe a caracterizar como “pouco saudável”. Quando começou a ter as primeiras namoradas os conflitos com a mãe surgiram e a relação passou de “sentimental” a “funcional”, afirma. As diferenças de opinião sempre foram maiores com o pai.


Filipe nunca foi um homem ligado ao desporto, até que aos 25 anos começou a frequentar o ginásio. Foi nessa altura que começou a perceber o positivo impacto da prática desportiva no seu corpo e, consequentemente, na auto-estima. Por causa da tendência para engordar Filipe tem alguns cuidados com a alimentação como, por exemplo, comer pouca carne, não adicionar açúcar a algumas bebidas, comer muitos vegetais. Para além disso, não fuma, nem tem por hábito beber bebidas alcoólicas. Diariamente hidrata a pele da cara e do corpo com creme e geralmente usa também um produto de limpeza e esfoliante, mas “nada de exageros” esclarece. Com menos frequência aplica máscaras de argila na cara. Já há alguns anos depila as costas e, mais recentemente, experimentou o peito e braços. Inicialmente era uma namorada que lhe depilava as costas com cera, actualmente aderiu a um sistema de foto-depilação ao domicílio. Durante 10 anos uma massagista de shiatsu deslocava-se a sua casa 2 vezes por mês. Neste momento já não consegue suportar essa despesa. Há 10 anos que frequenta mensalmente o mesmo cabeleireiro, um “cabeleireiro da moda”, diz entre risos.


Foi em Nova Iorque que começou a comprar e escolher a sua própria roupa e perceber, como o próprio diz, “o quão bem me fazia bem ir às compras”. Actualmente recusa-se a comprar roupa em Lisboa e tem por hábito fazê-lo sobretudo nas suas deslocações a Londres. Geralmente nessas viagens dedica dois dias às compras, passeia-se pelas lojas e experimenta roupa durante horas. É um programa que lhe agrada bastante e para o qual não tem “pachorra” em Lisboa. Define o seu estilo a vestir como “casual, mas cuidado” e tende a não usar “roupa de marca” por lhe parecer excessivamente cara.


A primeira namorada a “sério” surgiu quando tinha 17 anos, e antes disso, com 15 anos iniciou a sua vida sexual. Enumera três relações estáveis, todas com uma duração de três anos, aproximadamente. Há cerca de dois anos que não se envolve com ninguém. Da primeira relação guarda boas recordações: “havia uma intimidade que eu nunca tinha tido com ninguém. Depois numa idade em que estamos a descobrir e descobrimos as coisas em conjunto. Não há traumas. Não há complexos. (…) Nesse sentido o que me marcou mais foi essa cumplicidade, que eu acho que ao longo dos anos é mais difícil de se conseguir”. Mais recentemente teve uma relação com uma mulher 10 anos mais nova, com quem chegou a partilhar a sua casa durante dois anos. Desde o início que os conflitos foram muitos e a diferença de idades traduzia-se em diferentes expectativas que acabaram por se revelar inconciliáveis. Do lado de Filipe havia o desejo de constituir família e ter filhos, do outro lado não. No plano das tarefas domésticas a dinâmica revelou-se muito desigual, o que leva Filipe a dizer que era “dona de casa e homem ao mesmo tempo”.


O relacionamento com as mulheres é vivido de forma um pouco angustiante na medida em que Filipe, ao mesmo tempo que diz sentir-se atraído por mulheres mais independentes, deseja relações “simbióticas”. Da sua experiência estas duas realidades acabaram por não ser compatíveis. Por outro lado, foram várias as incertezas partilhadas em relação ao papel dos homens nas sociedades contemporâneas. Nas palavras do Filipe: “os homens de repente têm que se adaptar a uma realidade nova, porque não foram educados assim. (…) Todos os gajos que eu conheço neste momento andam à procura de mulher para casar. (…) E quando olho para as mulheres à minha volta não é isso que elas estão à procura. Tradicionalmente era o homem que tinha as ambições profissionais, que isto e que aquilo…”. Ao mesmo tempo que problematiza estas mudanças e aquilo que designa de “redefinição de papéis” Filipe não deixa de referir diferenças entre homens e mulheres de cariz psicológico e comportamental que considera imutáveis: “nós temos hormonas que nos dão uma determinada agressividade, do ponto de vista sexual e de apetite sexual”. Estas diferenças entre os sexos justificam que considere que meninos e meninas tenham que ser educados de forma diferenciada. Por exemplo, Filipe considera que os pais têm um impulso inato para protegerem mais as filhas. Na escala dos géneros Filipe situa-se no nível quatro, mais próximo portanto do extremo masculino.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Maio 2014

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031