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Zero mulheres mortas pelas mãos do actual ou ex-marido, companheiro ou namorado, em 2016. Até quando esta afirmação se manterá verdadeira? Até quando poderemos dizer isto? Por quantos dias mais?

 

Segundo dados da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) e do Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA), morreram, em 2014, 35 mulheres nestas condições. Dados avançados pelos media revelam que, em 2015, foram 29 as mulheres assassinadas. Ou seja, em 2014 de dez em dez dias uma mulher foi morta pelo homem com quem mantinha ou manteve uma relação amorosa. Em 2015, as mortes aconteceram a cada 13 dias. Em ambos os anos, registaram-se ainda mais homicídios sobre a forma tentada.

 

Estes números são a face mais obscura da desigualdade entre homens e mulheres, daquilo que alguns denominam de dominação masculina. Traduzem um sentimento de posse que alguns homens desenvolvem em relação às mulheres. Espelham a ideia da mulher como um ser inferior, que deve submissão ao homem. Alguns poderão argumentar que este tipo de sentimento e tragédia pode desenvolver-se no sentido contrário, ocupando o homem o papel de vítima e a mulher o de agressora. E têm toda a razão. Isso é possível. Contudo esta crónica não é sobre casos pontuais, mas sim sobre um fenómeno social.

 

O cronómetro para que os jornais noticiem a primeira mulher assassinada de 2016 já iniciou a contagem decrescente. A qualquer momento uma mulher vai ser morta pelo seu marido, com maior ou menor brutalidade, talvez em frente aos filhos de ambos, ao que se seguirá, eventualmente, o suicídio do próprio homicida. Morta a tiro ou à facada, espancada até à morte, queimada ou sufocada. Que sorte deve esta mulher esperar? Quem vai inaugurar as estatísticas da mortalidade por violência doméstica do novo ano? Será a Maria de Ermesinde ou a Catarina de Évora? Talvez uma vizinha minha, quem sabe… A única certeza é que alguma mulher vai, em breve, morrer.

 

A morte é o expoente máximo da violência doméstica. Na sua origem, nas suas raízes encontramos os múltiplos casos de agressão física e psicológica que acontecem diariamente no nosso país. Os mais optimistas podem pensar que nas classes etárias mais jovens a dinâmica de violência não está tão presente. No entanto, os estudos que têm sido divulgados a esse respeito apontam para uma realidade diferente. Os próprios dados da PSP são chocantes. Em 2014, registaram-se mais de quatro queixas diárias de violência doméstica em contexto de namoro. A esmagadora maioria destas queixas foram feitas por mulheres.

 

Hoje é dia 4 de Janeiro de 2016. Começou um novo ano e as mortes vão suceder-se. Só não sabemos quantas.

 

*Publicado em Público

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