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Mandar alguém para o c*** significa desejar-lhe mal, uma vez que o c***, num sentido metafórico, é um sítio temível e indesejável onde vamos ser maltratados e sofrer as estocadas de um qualquer animal raivoso. Se nos portamos mal é para lá que nos mandam. Este desejo pode ser expresso através de palavras ou gestos. Todos nós sabemos bem o que significa levantar o dedo médio e recolher os restantes. Enfim, o c*** nas suas múltiplas representações está por todo o lado. Encontramo-lo facilmente nas portas das casas-de-banho, nas discussões mais acesas entre amigos ou inimigos… É algo simbolicamente forte, duro, rude, agressivo, violento, que confere poder a quem o detém. Por sua vez, a ausência de “tomates” é algo que não abona a favor de ninguém, sendo fonte de embaraço para qualquer homem ou mulher. Ter falta de “tomates” significa não ter coragem, não ser audaz ou destemido.

 

O seu congénere feminino, pelo contrário, está menos presente no nosso dia-a-dia. Também pode ser usado como insulto, é verdade, mas ao contrário do c*** é usado para insinuar que alguém é fraco, frágil, efeminado, franzino… É como se ter uma senisga fosse algo de que nos devêssemos envergonhar. Para além de vergonha, a crica sempre esteve envolta em mistério e misticismos. Tem ponto G ou não tem ponto G? O que é o exactamente o clitóris? Como é o orgasmo feminino? É real ou fingido?

 

Também a menstruação é assunto tabu para muita gente e, no geral, evita-se falar sobre isso. Apesar de o ciclo menstrual estar associado ao aparelho reprodutor feminino e à capacidade de gerar uma criança, desde a antiguidade que a menstruação está na base de vários mitos. Mulher menstruada não deve bater claras em castelo porque elas não vão crescer. Não pode amassar o pão. Não pode tomar banho, sobretudo lavar a cabeça. Já no submundo da bruxaria e magia negra são atribuídos poderes maléficos ao sangue menstrual. Felizmente, creio, muitos deles estão a desaparecer.

 

Portanto, para além das desigualdades materiais e de existência entre homens e mulheres, existem também desigualdades simbólicas (e não só) no que diz respeito ao modo como os órgãos genitais de cada um são representados e valorizados no imaginário ocidental. Foi, aliás, esta desigualdade que esteve na origem do trabalho artístico de uma japonesa, Megumi Igarashi, presa por divulgar imagens da sua patareca. Um dos projectos mais polémicos consistiu em imprimir uma canoa em 3D à imagem da sua passarinha, mas a artista tem também trabalhado em artigos como capas de telemóveis onde inscreve o molde da sua rata. O objectivo da artista é exactamente o de chamar a atenção para a ausência de imagens (e discursos) sobre a vagina, face à presença monopolista do pénis na cultura japonesa. Afinal, quem gosta de ver c***s por todo o lado?

 

*Publicado em Maria Capaz

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