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Muitos homens e mulheres estão doentiamente obcecados pelo Benfica. Outros tantos e tantas seguem de forma compulsiva a novela das nove. Trata-se de comportamentos obsessivos que, por vezes, se associam a alguma instabilidade emocional.

 

É assim na casa dos Batista onde tudo gira em torno do Benfica e da novela das nove. A obsessão é vivida a dois. Quando o Benfica perde ou a novela é subtraída da programação televisiva reina a má-disposição. Preocupados com a situação, o casal consultou um terapeuta que o aconselhou a repensar os seus hábitos, abdicando de um destes dois “passatempos” familiares. Sensibilizados com o que ouviram, o senhor e a senhora Batista deram o primeiro passo, fazendo uma análise dos seus comportamentos.

 

Se há jogo não há jantar com amigos, não há ida ao IKEA, não há sexo, enfim… A casa enche-se de gritos, suspiros, desabafos, lágrimas, insultos, esperança, desilusão, euforia, má-disposição e mais gritos. Esta algazarra perdura para além do jogo. Ouve-se o treinador balbuciar em mau português três balelas sobre o jogo. Se perderam a culpa é da arbitragem, se ganharam foi merecido pois trabalharam para isso. Lê-se o jornal A Bola, acompanham-se as contratações, as lesões, os jovens promissores que levarão o clube de volta às vitórias. Vêem-se os programas especializados com comentadores conhecedores dos últimos 30 campeonatos, os quais conseguem ir buscar para a conversa o golo do Kulkov contra o Bayer-Leverkusen na temporada de 1993/1994. (Sim, o cérebro humano é capaz de registar informação deste tipo.) Enche-se a casa de símbolos do Benfica, compram-se cachecóis e estandartes em miniatura, coleccionam-se cromos dos jogadores e pagam-se as quotas, pois claro. Vai-se ao estádio. Num ano financeiramente desafogado presenteiam-se com um cativo.

 

A novela fica mais barata pois passa na televisão generalista e, para além disso, substitui-se o consumo de imprensa diária por publicações semanais. Ou seja, A Bola é trocada pela Maria. Esta segunda, tem a mais valia de antecipar os próximos episódios. Todos nós sabemos que por mais que se leia o jornal A Bola de fio a pavio é impossível prever o desfecho de um dérbi. Deste modo, evita-se também o suspense que antecede, por exemplo, um Benfica-Porto bem como o chinfrim que acompanha o jogo. Ver a novela é algo mais tranquilo, podendo inclusivamente adormecer-se durante a sua visualização sem culpas ou remorsos. Isto porque no início do próximo episódio eles repetem os acontecimentos mais importantes. Também não há problema em ir jantar fora na hora da novela, pois pode gravar-se o episódio para ver mais tarde sem correr o risco de ouvir na rádio o resultado.

 

Na verdade a paixão pela novela das nove não é a mesma que os Batistas nutrem pelo seu Benfica. Quando uma novela acaba começa outra logo a seguir e, sem culpas, esquecem-se os antigos protagonistas e começam a odiar a nova vilã. No futebol não se passa de um clube para outro com esta leviandade e vive-se tudo com mais inquietação.

 

Feito o balanço, o senhor e a senhora Batista decidiram trocar o Benfica pela novela das nove. É melhor para a carteira e para o coração.

 

*Publicado em Público

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