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Anda muita gente preocupada com o insucesso escolar dos rapazes. Os mais alarmistas consideram que passámos, em poucas décadas, de um extremo para o outro. A verdade é que se há algumas gerações atrás não era raro que apenas os filhos homens fossem à escola, hoje são as  mulheres que têm mais estudos.

 

Aliás, Portugal destaca-se no quadro europeu como um dos países onde a diferença de qualificações entre sexos é mais acentuada. Dados actuais revelam que cerca de 45% das mulheres portuguesas completaram o ensino secundário ou superior, enquanto apenas 37% dos homens detêm os mesmos níveis de ensino (dados do Eurostat para a população entre os 15 e os 64 anos). Países há em que essa diferença é praticamente nula como a Islândia, a Dinamarca e a Suécia.

 

Como compreender esta inversão de tendência em países como Portugal? O que explica esta mudança social e para onde ela nos leva? Da mesma forma que se anuncia o fim dos sisos, estaremos a assistir a um sobredesenvolvimento da massa cinzenta nos seres humanos do sexo feminino? Mais inteligentes e mais capazes, estarão elas a preparar-se para dominar o mundo?

 

A história dos irmãos Ricardo e Ana ajuda-nos a compreender parte do segredo do insucesso escolar dos homens. A Ana é uma princesa, bem comportada e muito inteligente. O Ricardo é um reguila muito esperto mas não tem queda para os estudos. É desta forma que os pais descrevem os seus rebentos. Encaram as idiossincrasias dos filhos como o resultado de características inatas, uma vez que, tanto quanto conseguem perceber, proporcionaram-lhes as mesmas oportunidades. Frequentaram as melhores escolas, participaram em todas as viagens de estudo e tiveram todo o apoio extracurricular disponível. A diferença está na socialização de género, pois ambos tinham um quociente de inteligência bastante elevado.

 

A Ana foi educada com mais rigor, uma vez que os pais consideram que as meninas são mais frágeis do que os homens e devem ser protegidas de determinadas situações, como as saídas à noite ou as dormidas em casa das amigas. Desde muito cedo que Ana ajudava a mãe na gestão da casa, limpava e organizava o seu quarto. A obediência, organização e disciplina integraram a personalidade de Ana, o que se tornou um trunfo na escola. Sempre foi a melhor da turma e a preferida dos professores, o que deixava os pais muito orgulhosos. Hoje é médica em Coimbra.

Ricardo foi educado para ser um rapagão! Quanto às traquinices, os pais costumavam defender que fazem parte do normal crescimento dos rapazes. Quando entrou na escola, Ricardo levou a rebeldia do pátio que ficava nas traseiras do prédio para a sala de aula. A necessidade de se afirmar como um homem crescido levava-o a fazer coisas que colidiam com a cultura da escola. Onde ele se sentia bem era com os amigos, de volta de uma bola. Aliás, ser jogador de futebol era um sonho que alimentava desde pequeno. Mais tarde, o sonho desfez-se e ao desconforto face à escola juntou-se a urgência de autonomia financeira e independência face aos pais. Terminou o 12º ano a custo e hoje explora um pequeno quiosque em Queijas.

 

A história de Ricardo e Ana repete-se, com as devidas nuances, em muitas das famílias portuguesas. É o conjunto destas histórias que dá vida e sentido às percentagens de que falei no início desta crónica. Na sociologia, estas percentagens não são nada mais do que o reflexo da repetição. E a repetição deve-se a este ideal de masculinidade que faz os rapazes desafiar as regras, faltar às aulas e querer ser homens muito depressa. Mas esta não é, provavelmente, a única explicação para este fenómeno. Outras poderão existir. Que ponha o dedo no ar quem defende que as mulheres são mais inteligentes do que os homens.

 

Para terminar a história vamos todos respirar fundo, homens e mulheres, e desdramatizar o fenómeno. Sim, as mulheres são, actualmente, mais qualificadas do que os homens, mas, mesmo assim, eles continuam a dominar o mundo. Eles estão em menor número nas universidades, mas acedem às áreas de ensino que são mais valorizadas no mercado de trabalho. Eles ganham mais do que elas, mesmo quando comparamos homens e mulheres com iguais qualificações. Por vezes a inteligência não basta. 

 

* Crónica publicada no Público

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