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A entrevista com Adão durou cerca de quatro horas distribuídas por duas sessões e realizou-se num centro comercial por si escolhido. Adão nunca esteve totalmente à vontade durante a entrevista. Ora pedia desculpa por qualquer lapso, ora fumava compulsivamente cigarros. Na segunda sessão não estava tão concentrado e disponível para a conversa. Vestia calças de ganga e pólo.

 

O Adão tem 22 anos, deixou a escola com o 9º ano concluído e desde essa altura que trabalha na papelaria da mãe, com quem vive na periferia de Lisboa. Reprovou no 8º ano porque faltava à escola para ir jogar à bola. Chegou a frequentar o 10º ano mas reprovou porque faltava para ficar a dormir até mais tarde. Já a trabalhar, frequentou um curso de Instrutor de Ginásio que lhe custou 500 euros, mas chegava a adormecer nas aulas. Actualmente está muito empenhado na manutenção do negócio da papelaria e diz não tencionar estudar mais. Isto não o incómoda e dá exemplos, em sua defesa, de empresários portugueses de sucesso com poucos estudos.

 

A relação com a mãe é muito boa e, ao longo da entrevista, foram vários os elogios que lhe foi tecendo, principalmente o facto de ser uma mulher independente e trabalhadora que nunca deixou que faltasse nada aos filhos, ao contrário do pai. Ao pai, proprietário de um restaurante, praticamente já não fala. Não lhe perdoa a ausência e negligência em relação à família, que culminou no divórcio dos pais.

 

Adão gosta de viver com a mãe por vários motivos. Não tem despesas com a casa, a mãe está encarregue da maior parte das tarefas domésticas e tem a liberdade de levar quem quer lá a casa. A relação com o irmão, que trabalha numa loja de roupa de um caro estilista italiano, no centro de Lisboa, é próxima. Da irmã, que frequenta o curso de sargento, Adão diz que sempre foi muito masculina e que com ela “nunca tem conversa”.

 

Desde que trabalha na papelaria já teve outros part-time para complementar o que ganha na loja da mãe. Trabalhou num grande supermercado e numa loja de roupa jovem. A passagem pela loja de roupa permitiu-lhe fazer amizade com pessoas mais velhas, fora da Amadora e foi nessa altura que começou a ter uma vida nocturna mais intensa. Apesar de manter algumas amizades do tempo da escola, Adão refere não se enquadrar nas pessoas do Cacém. Ter carro aos 18 anos facilitou as saídas para Lisboa. Ao fim do dia tem por hábito encontrar-se com os amigos no café ou, mais recentemente, ir com eles andar de carro, ouvir música e fumar cannabis. Considera que amadureceu bastante nos últimos anos, que já tem uma “certa cabeça”, e durante a entrevista partilhou alguns episódios por que passou que o levam a equacionar-se como um adulto.

 

No plano amoroso faz referência a duas namoradas, mas confessa que nenhuma delas constituiu uma relação suficientemente especial ou duradoura. É o único do seu grupo de amigos que “ainda não gostou bué de ninguém”, o que deseja, já com alguma ansiedade, que aconteça. Da primeira namorada, tinha ele 18 anos, as recordações não são boas. Para além das “cenas” em frente aos amigos, a ex-namorada chegou mesmo à agressão física a que Adão não deixou de responder. Da segunda namorada diz ser uma das “piores pessoas” que já conheceu.

 

Para além do futebol, que joga regularmente desde muito jovem, Adão costuma ir ao ginásio algumas vezes por semana e, por vezes, vai correr. As corridas são sobretudo para ganhar resistência para os jogos de futebol, pois “mesmo sendo um jogo a brincar, ninguém gosta de perder. Gostas de ter força, gostas de correr”. A entrada no ginásio deu-se aos 17 anos devido ao descontentamento com o pouco peso e aspecto demasiado magro. Na altura confessa que chegou mesmo a pensar tomar suplementos alimentares ou mesmo anabolizantes, como o seu irmão já fez. Não chegou a concretizar pois, entretanto, ganhou algum peso e volume. Ainda criança foi nadador federado durante três anos.

 

Adão diz que desde miúdo não gosta de pêlos. Como tal, por motivos estéticos, higiénicos mas também sexuais, tira os pêlos do peito, das axilas e da zona púbica há alguns anos. Farto de gastar dinheiro na depilação a cera, optou recentemente pela depilação a lazer. Em casa, com uma pinça, retira os pêlos entre as sobrancelhas. Sempre que faz a depilação põe creme no corpo e trata com especial cuidado os pés. Com frequência vai à manicura e pedicura. Na primeira entrevista Adão tinha ainda restos de esmalte nas unhas, mas diz não gostar de usar. No rosto usa diariamente creme hidratante, já fez um peeling e chegou a experimentar usar base. Gostou do resultado, mas recusa-se a aderir a esse ritual: “Opá não tenho paciência. E acho que é uma cena que já não é… Acho que é uma cena já um bocado exagerada para o meu gosto. Há pessoal que gosta, mas para o meu gosto não me estou a ver todos os dias ao fim do dia a tirar a maquilhagem (risos)”.

 

A vestir gosta de estar “apresentável” e define o seu estilo como “normalíssimo”. A principal preocupação é ter uma imagem adequada à sua actividade profissional. É em roupa que gasta grande parte do seu orçamento e dá preferência a marcas que lhe garantem não encontrar muitas peças iguais à sua. Uma grande preocupação, aliás. Gosta de ir às compras sozinho e geralmente não compra logo na primeira vez que vê alguma coisa do seu agrado. Não usa nenhum tipo de acessórios, com a excepção do relógio, e afirma inclusive que “odeia” echárpes. Há alguns anos atrás furou as duas orelhas, mas graças aos avisos do pai em duas semanas tirou os brincos: “o meu pai começou logo a reclamar e hoje em dia agradeço-lhe imenso de os ter tirado porque brincos não cabe na cabeça de ninguém. São estilos mas… Olha eu estar com dois brincos à frente de uma loja. Acho que a loja se calhar não tinha chegado tão longe”.

 

Adão tem uma concepção muito diferenciada dos géneros e atribui às especificidades genéticas e físicas essas diferenças. Associa às mulheres o culto do corpo e da beleza. Já eles são mais pragmáticos e dão mais valor ao lazer, diversão, beber, fumar, no fundo “o homem nasceu para isso”, afirma. Ao longo da conversa Adão não deixou de enumerar excepções, mas tratou-as como tal, excepções à regra. Considera ainda que as mulheres desde sempre usaram a beleza e o corpo para se aproveitarem dos homens. Apesar de considerar que as mudanças são superficiais e, que na essência, as diferenças entre homens e mulheres nunca vão mudar, não deixa e referir o quão difícil é actualmente encontrar uma rapariga para namorar. No plano sexual, reconhece que a sociedade é mais repressora com as mulheres e agrada-lhe que as coisas continuem a ser assim. Na escala dos géneros situa-se no meio, no cinco, pois não se considera nem muito feminino, ou seja gay, nem muito machão, como o seu pai.

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