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A cultura é criada, reforçada e transformada através de vários mecanismos. Família, escola, televisão, Internet são alguns dos veículos de socialização mais eficazes. Ainda antes de saber andar com destreza, as crianças são expostas a inúmeras fontes de informação sobre a cultura em que estão inseridas. Esta exposição à cultura nunca mais pára, mas os primeiros anos de vida são especialmente importantes.

 

Aprende-se, desde cedo, algumas regras básicas sobre interacção social e outras mais complexas sobre as identidades sociais. Aprende-se a comer com garfo e faca, a cumprimentar com dois beijos na face e a agradecer os presentes. Aprende-se, também, o que é esperado de um homem e de uma mulher na sociedade e quais as suas características padrão. Aprende-se que o cor-de-rosa é cor de menina e que o futebol é coisa de meninos.

 

Também a publicidade cumpre o seu papel, pois muitas vezes o que ela faz é reforçar os estereótipos que circulam em determinada cultura. Fazem-se anúncios sobre detergentes e amaciadores para a roupa com donas de casa afáveis e preocupadas com as coisas do lar. Fazem-se anúncios sobre carros com homens bem-parecidos e ar de quem é bem-sucedido na vida. Ou, então, com mulheres atraentes e voluptuosas tentando passar subliminarmente a mensagem de que ao comprar o carro se receberá, quiçá, um brinde igual àquele.

 

Do meu ponto de vista, a publicidade peca por não surpreender o consumidor e não acompanhar a mudança social. Um exemplo gritante são os panfletos dos brinquedos que vemos circular por esta altura. Os panfletos estão meticulosamente divididos em duas secções. Uma parte em que domina o cor-de-rosa e é dedicada às meninas e outra azul para os meninos. É raro existir uma zona neutra. Na parte cor-de-rosa podem encontrar-se trens de cozinha, ferros de passar, micro-ondas, etc. Enfim, todo o tipo de parafernália que estamos habituados a ver numa cozinha. Na parte azul aparecem os carros de corrida, os carros descapotáveis, os carros clássicos, os comboios, mas também as retroescavadoras e outras viaturas ligadas à construção civil. E claro, bolas de futebol e até balizas desmontáveis.

 

A menos que a ideia seja manusear os brinquedos com os órgãos genitais, como uma mensagem que circula nas redes sociais parodia, alguém me explica o porquê desta segmentação tão acentuada (e fora de moda) entre os brinquedos das crianças?

 

Não me digam que estamos a educar todas as nossas meninas para serem empregadas domésticas? Bem sei que nos dias de hoje uma licenciatura não é garante de bom emprego, mas mais vale um canudo na mão do que uma esfregona, não? Para além disso, limpar a casa e esfregar as panelas não é algo que as pessoas gostem assim tanto de fazer… Ou estarei enganada?

 

E os meninos, vão ser todos pilotos de Fórmula 1? Jogadores de futebol? Vem aí uma geração inteira de Cristianos Ronaldos? O futebol move mundos e muito dinheiro, bem sei, mas não me parece que haja lugar para tantas bolas de ouro…

 

A pior prenda de Natal de sempre é aquela que limita o futuro das crianças. Uma varinha mágica em miniatura, cor-de-rosa e decorada com borboletas é isso mesmo. A pior prenda de Natal de sempre. Não que eu desvalorize a arte de saber cozinhar. Muito pelo contrário, gosto imenso de cozinhar e vejo-o como uma actividade lúdica e relaxante. Mas o que seria de nós se apenas soubéssemos cozinhar ou dar chutos numa bola?

 

Neste Natal desejo que as prendas das crianças apareçam trocadas nos sapatinhos. Um carrinho para a menina e um ferro de engomar para o menino.

 

*Crónica publicado no Público

 

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