Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




 

 

“Renée Zellweger mudou de rosto, e você porque não faz o mesmo?”, bem podia ser o slogan de uma clínica de cirurgias plásticas. Ou então, “se não quer ficar parecida com a Jéssica Athayde venha ter connosco! O Peso Certo não é a única forma de se tornar uma celebridade”. Ou ainda, “Ponha os olhos na ex-miss Tailândia e entregue-nos as poupanças da sua vida. Em troca nós devolvemos-lhe a sua juventude”. (Talvez devesse abrir uma agência publicitária dedicada a este nicho de mercado, o que acham?)

 

Não sendo propriamente estas as mensagens, a verdade é que o assédio vem de todo o lado, ainda que menos directo e mais subliminar. E quem mais sofre com ele são as mulheres, se bem que os homens vão pelo mesmo caminho. As revistas, a televisão, a publicidade, etc., estão repletas de imagens de mulheres-ideais que pretendem servir de modelo para as mulheres-reais. Ao vivo, é mais raro ver-se uma mulher-ideal. É como na história da Cinderela, quando saem das páginas das revistas a magia do Photoshop desaparece.

 

As mulheres-reais para se tornarem mulheres-ideais devem submeter-se a uma série de tratamentos cada vez mais exigentes, consumir determinados produtos, fazer muito desporto e/ou comer com muita moderação. Não existem, ou são cada vez menos, as partes do corpo que ficam fora da sua intervenção. Depilar, alisar, limpar, perfumar, aumentar, diminuir, cortar, colorar, descolorar, reconfigurar, tatuar, perfurar…são tarefas que entraram na vida quotidiana de muitas mulheres. É como se quisessem ser as costureiras dos seus próprios corpos.

 

Existe toda uma indústria dedicada ao corpo feminino (e a indústria dedicada ao corpo masculino cresce a olhos vistos). Muitos dos produtos alimentares disponibilizam a sua versão light, magra ou zero calorias. Vendem-se aos milhares livros com as dietas do momento, aquela dieta que vai fazer a mulher-real perder os quilos que a separam da mulher-ideal. Algumas destas dietas são realmente castradoras no que diz respeito à diversidade de alimentos que se podem ingerir. A batata, o pão e a massa são regularmente banidos das ementas como se de veneno se tratasse.

Surgem, mês após mês, procedimentos supostamente mais inovadores, mais eficazes e menos invasivos no tratamento das rugas, das borbulhas, da flacidez, das estrias, da celulite, da gordura localizada, dos poros dilatados, dos seios pequenos, do nariz grande, da coxa robusta, da queda de cabelo… Os desenvolvimentos da cirurgia estética parecem desafiar os limites da própria natureza. Tudo ou quase tudo é possível. Parece que o mundo põe à disposição das mulheres-reais tudo o que elas possam precisar para se tornar mulheres-ideais. Só não chegam lá porque não querem, pode até pensar-se.

 

Mas quem raio se lembrou de criar uma mulher-ideal tão jovem e magra!? Será Deus o culpado? Terão sido as próprias mulheres? A culpa é da indústria, dos media? Não seria mais fácil simplesmente despedir esta mulher-ideal? Concedendo-lhe, obviamente, uma boa indeminização por todo o trabalho incansável que tem feito. Ou, atribuir-lhe um bom subsídio de desemprego. Reforma antecipada até. O que vos parece?

 

(E com isto, acabei de pôr um fim na minha futura e brilhante carreira de publicitária da magreza e da juventude. A mulher-real não move indústrias.)

 

*Crónica publicada no Público

Autoria e outros dados (tags, etc)



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Outubro 2014

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031